Mais um feminicídio assombra a vida das que ficam. “O que a vida quer da gente é coragem”, dizem os otimistas. Serve de que citar Guimarães Rosa numa hora dessas?
A hora é de Copa do Mundo, e pouco importam as vidas que vão ou ficam pelo caminho. Apesar de humanos, praticamos a irracional lei do mais forte. Manda quem pode, obedece quem tem juízo, reza o ditado.
Rezam muitos, mesmo os que sequer têm pernas para devotar sob os joelhos a fé torpe e combalida que ainda resta. Até porque, em terra de cego, quem tem um olho é rei; e dos cegos é exigida a servidão dos escravizados. Não é, vossa alteza?
A bola vai rolar. São 48 seleções, incluindo a penta-canarinho — menos a Itália — disputando 104 partidas até a grande final em 19 de julho. Nesse tempo, certamente vão rolar mais cabeças do que bolas. Até agora, só na guerra Irã x EUA-Israel, mais de 3 mil pessoas morreram, diz a rede Al Jazeera, do Catar.
Catar, terra do tri da seleção Argentina, em 2022, onde são proibidas manifestações públicas de afeto e existem restrições severas ao consumo de álcool, além dos casos de corrupção, das violações de direitos humanos, da exploração de trabalhadores migrantes e do sistema kafala — a dita “escravidão moderna.”
Antes de a bola rolar é preciso esperar pelo trilar do apito do árbitro, ao centro do campo. Minutos antes da partida de sábado, o senhor Ancelotti vai explicar — pela milésima vez — o que cada atleta deve fazer em campo, qual papel interpretar, em que momento atacar ou recuar.
Até hoje, nenhum ser humano executou tão bem um nó tático no adversário como Garrincha. Quem chegou mais perto foi Ronaldinho Gaúcho. Ou seja, a cada 50 anos surge um extraterrestre hábil na arte de humilhar zagueiros.
Em tempos de guerra, contudo, há líderes empunhando canetas, disparando ordens para mandar prender e deportar, às vezes, até matar. Tudo fora das quatro linhas, como fazem os pernas de pau, inaptos até para uma prosaica tabelinha diplomática.
Até porque, quando um não quer, dois não brigam. E os ditadores sempre escolhem brigar, mesmo quando são os donos do campinho, da bola e das regras do campeonato. Tão irônico quanto o Rei da Bomba receber o prêmio de Líder da Paz Mundial, entregue pelo cara que diz organizar o campeonato.
Talvez essa crônica seja só um indigesto sonho depois de uma feijoada mal digerida. Se bem que esse nó no peito, essa torpe sensação de estômago embrulhado não tem Olina que cure. Esse nó na vida da gente não tem santo que cure; nem Garrincha, com seus dribles desconcertantes. Em minhas orações, clamo por contatos imediatos de terceiro grau.



