Quem transita pelo Cemitério Público sente a aspereza do vento que ecoa entre os túmulos cinzentos. Se houvesse ali uma floresta de ciprestes, poderíamos nos perder no Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, do Borges, onde cada alameda é um destino interrompido, cada nome na pedra é um labirinto de memórias que desafia o esquecimento.
Há um contraste brutal na arquitetura do adeus. De um lado, jazigos de famílias tradicionais, erguidos como capelas ou pequenos templos, adornados por estátuas monumentais e anjos que parecem velar os mortos, com suas asas de pedra e semblantes severos. De outro, o pragmatismo das gavetas sobrepostas, atestado de uma vertical e compacta existência. A morte, contudo, horizontaliza a paisagem. A luz do entardecer bate da mesma forma na asa do anjo monumental e no ramalhete de plástico preso a uma gaveta de gente humilde.
Em meio aos túmulos, a sensação é a de que habitamos o território de Saramago em As Intermitências da Morte. Lembramo-nos de que a morte não é o oposto da vida, mas sua condição essencial, caminhando, lado a lado, numa simbiose perfeita. É como a icônica cena de O Sétimo Selo, de Bergman. Estamos todos ali, feito o cavaleiro Antonius Block, jogando xadrez com a nossa indefensável finitude. Dia após dia, sacrificamos uma das peças do tabuleiro na vã tentativa de adiar o xeque-mate.
Nessa partida silenciosa, a trilha sonora ressoa fragmentada na melancolia geométrica de Vitor Ramil: “a voz de um milongueiro não morre/ não vai embora em nuvem que passa.” No rigor da melancolia, reluz a iminência do fim e a beleza trágica de estarmos vivos.
Certa feita, pautado para escrever uma reportagem sobre o Dia de Finados, entrei sozinho, num domingo cinza como chumbo, no Cemitério Público. Perto de uma das alas de gavetas, o peso do mundo se concentrava em uma cena espinhosa. Um menino, pequeno demais para compreender a eternidade, observava a mãe. Ela chorava, inconsolável, debruçada sobre a lápide fresca do marido. O guri, contudo, desviou os olhos da pedra fria. Por cima do muro alto do cemitério, ele avistara uma pipa colorida, dançando ao sabor do vento, alheia à gravidade da dor humana.
O menino puxou a saia da mãe e, apontando para o alto, disse:
— Olha, mãe...
A mulher em prantos, secando as lágrimas da face, ergueu os olhos e, num sopro de puro lirismo e transcendência, tomou o guri no colo, apertou-o contra o peito e sussurrou:
— É o papai, meu filho. Ele aprendeu a voar...

