Dizem que só os poetas têm poder para sustentar a galáxia na ponta de um verso. A sentença pode soar tão ridícula quanto imaginar que Noé embarcou duplas de animais numa arca para iniciar a versão 2.0 do planeta Terra.
Há quem passe a vida tentando confirmar teses como essas – ou até mais esdrúxulas (como são todas as teses). Enquanto alguns mergulham num oceano de incertezas, os poetas — de fato — dão risada das teorias que tentam explicar o sentido dos versos.
Drummond, aquele magro ser, de raros sorrisos, satiriza-nos. Já começa pelo nome do poema: Um boi vê os homens. O boi, enquanto rumina o pasto, versa: “Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa.”
O poeta não explica (e por que deveria?). Mas quem tem fé há de acreditar que o dito boi do poema do Drummond é descendente dos bovinos dos idos tempos de Noé. Foram resgatados para prover de carne fresca aos carnívoros, ou, no caso do Drummond, para fazê-lo ruminar a vida.
Fernando, que apesar de ser muitos, se chamava Pessoa, assim mesmo no singular, foi mestre em derrubar teses, nos deixando ao avesso da pele. Dentro e fora do poema, brincou de vida e morte, como no satírico caso do “suicídio” do ocultista britânico Aleister Crowley. Dizem que Pessoa ajudou a forjar o falso suicídio de Crowley na Boca do Inferno, Cascais, em 1930.
Pessoa, incorporado em Fausto, aquele que deseja tocar o eterno para compreender o mistério, escreveu: “Acorda, eis o mistério ao pé de ti! / E assim pensando riu amargamente, / Dentro em mim riu como se chorasse!”. Chora ou ri, Mugnol? E lá eu tenho a chave dos mistérios?
Ou alguém pode me explicar por que Jó — considerado um homem justo e íntegro — virou alvo de uma aposta entre Deus e Satanás? A tese de Satanás: “Jó é justo e íntegro, porque tu, Deus, o abençoas”. A antítese de Deus, para rebater o Cão: “Jó será justo e íntegro até mesmo na dor”. Em resumo: Jó perdeu seus bens, seus servos e seus filhos em tragédias sucessivas.
Enquanto Satã gargalhava, Jó adorava ao Altíssimo: “Vive Deus! Enquanto em mim houver alento e o sopro de Deus nas minhas narinas, não falarão os meus lábios iniquidade, nem a minha língua pronunciará engano.”
Ao fim e ao cabo, Jó foi restituído em dobro. “E depois disto viveu Jó 140 anos; e viu a seus filhos, e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. Então morreu Jó, velho e farto de dias.”
Vai entender, né? Nesse oceano de mistérios e incertezas é tudo do avesso: vice-versa, verso inverso.





