O circo era uma das paixões do meu avô Floriano. O futebol também. Chegou a jogar no time B do Flamengo, raiz ancestral do Caxias. Depois, compreendeu que sua habilidade com os números poderia ajudar mais o time, servindo como um abnegado tesoureiro do clube grená. Desse período, o seu Floriano me contou uma história, depois confirmada pelo meu tio Marco Antônio, que parece cena de filme.
Ao final das partidas, depois de fechar o borderô da bilheteria, meu avô, meu tio, entre outros abnegados, iam comer um lanche pós-jogo. Com naturalidade, levavam consigo uma bolsa de couro repleta de dinheiro. Enquanto comiam, mantinham a bolsa embaixo da mesa. Ao chegar em casa, meu avô guardava o dinheiro no cofre. No dia seguinte, levava o resultado da bilheteria para depositar no banco. Outros tempos, meu caro. Outros tempos...
Voltando ao tema circense. Na primeira vez que fui ao circo, fiquei impressionado com o Globo da Morte. Para quem nunca viu, o espetáculo mostra dois ou três motociclistas tocando o terror dentro de uma esfera metálica — acelerando e girando — sem medo de morrer. Confesso, no entanto, que me diverti mais com os palhaços. Meu avô ficava encantado com os trapezistas, tanto que ele jogava os netos para o alto e nos colocava de pé sobre os seus ombros — tudo isso para desespero da minha mãe.
A essência do circo é a ingenuidade do palhaço e sua devoção ao riso. Depois da primeira vez, os truques são manjados, já sabemos no que vai dar, mas é quase impossível resistir à piada. Há quem já comece a gargalhar antes do final da cena, porque não há mistério ali; o palhaço não quer nos enganar. Todo mundo sabe que em algum momento aquela flor gigante na lapela do palhaço vai jorrar água, molhando o parceiro de picadeiro.
Quando descobri os filmes do Fellini, até hoje um dos meus cineastas favoritos, fui fisgado pela alma circense que paira em quase todas as suas produções. Em La Strada (1954), por exemplo, nos deparamos com o artista itinerante Zampanò, que arrebenta correntes amarradas em seu corpo, e Gelsomina, que passa a atuar como palhaça nessa itinerância deles. Referências mais claras aparecem em Os Palhaços (1970), filme que mistura memória, fantasia e realidade como uma ode ao circo, uma das marcas de Fellini.
Mais do que fazer rir, o palhaço transita entre dois mundos. Eles podem parecer divertidos, sim. Em sua essência, contudo, são melancólicos. Não porque, no meu caso, eles aparecem como símbolo nostálgico. Mas porque essa sina de fazer rir o tempo todo pode esconder a estranha dor de um vazio existencial sem fim.
Dentro das quatro linhas, o palhaço-chefe desse elenco que vai para a Copa do Mundo terá de se esforçar como nunca para nos fazer sorrir. Acho difícil. A sombra do trágico 7 a 1 se aproxima...






