É verão! Pelo menos agora, enquanto escrevo, o sol arde lá fora a 27 °C. Tentando me esquivar do mormaço, à sombra das marquises que ajudam a acentuar a sensação de fervor, só consigo lembrar dos versos de Verão em Calcutá, do poeta e compositor caxiense Nei Lisboa:
“Come on, baby, maybe,
Vamos passar
Um bom verão em Calcutá
Ao som do mar”
O mar, o mar, está léguas distante. O verão também deveria estar, mas teima em permanecer. Logo ali, domingo, dizem, volta a esfriar. Pois é, nada disso parece fazer sentido. Nem mesmo esse ensaio de crônica, como se tentasse desviar da antagônica estação.
A paisagem serrana deveria estampar a densa neblina outonal, adornada com folhas secas pelo chão que pisamos sem disfarçar nossa indiferença. Na falta dessa cena melancólica, não paro de pensar no mar, na brisa à beira-mar, desfrutando de uma caipirinha à sombra de um guarda-sol, observando um bêbado com chapéu de coco fazendo referências mil à noite do Brasil, enquanto sorrio com a Nil.
Talvez seja só um delírio, fruto desse verão infernal atravancando nosso caminho invernal. Poderia ser verão para sempre, defendem alguns. Poderia. E é, lá na Bahia, terra de Nivaldo e de Caymi, que avisou à morena do mar que iria chegar, e chegou. Se o sol nasceu para banhar a Bahia, nós, do canto sul do Brasil, somos testemunhas de que, na ausência do banho de sol, podemos mergulhar neblina adentro.
Não importa quando nem onde. Tudo é fugaz. Ontem, à beira-mar, revelei uma tímida saudade outonal. Hoje, imerso no verão mordaz, queria me deitar à luz de uma lareira, numa cabana no alto de uma montanha. Talvez passar lá um mês ou dois, até ver terminar o rigor do inverno ou até acabar a pilha de livros não lidos.
Vida mesmo seria escolher a estação. Pular de um trem para um avião, viajando atrás do verão por um, dois, três anos, a perder de vista. De praia em praia, só para ficar à parte, sorrindo, distante, de fora, no escuro, apartado das cenas de comercial de televisão. E depois de cansar do verão, passar uma temporada noutra estação, talvez flanando na primavera de uma cidade florida até o teto.
Pois é, mas como a vida não é um morango, como a vida imita os programas ruins de televisão, me cabe sacudir a poeira, encarar a rotina casa-trabalho-casa-trabalho, num moto-contínuo, entrecortado por alguns fugazes momentos de trocas de sorrisos à beira-mar, para quebrar o tédio e apaziguar a tristeza profunda de um inverno infinito.
Vambora pro mar, amor?



