No outono, parece que pensamos mais devagar. Talvez seja o frio; talvez seja só preguiça mesmo. Caminhando pela rua, à procura de uma crônica, reparei num homem vestindo um sobretudo preto, de lã. Apesar do fino chuvisqueiro, ele transitava seguro e sereno, assobiando, carregando debaixo do braço um exemplar de jornal. E, por um instante, invejei aquela serenidade inútil. De quem vai daqui para lá desprovido de preocupações, como se a vida fosse um eterno borboletear primaveril.
Lembrei então da frase de Paulo Mendes Campos, uma pequena bomba de elegância: “A primeira e indiscutível qualidade do analfabeto é não ser nem jornalista nem escritor.” Há uma sabedoria suspeita nisso. Porque ser jornalista ou escritor, no fundo, é uma forma de complicar o simples, de reinventar a roda. É como tropeçar numa folha caída e escrever três parágrafos sobre a decadência das estações.
Enquanto isso, o analfabeto — no sentido mais literal ou até metafórico – passa ileso. Não sofre da tentação de interpretar o mundo. Não precisa achar um significado oculto na borra do café — como fazem os ocultistas. Não escreve sobre o vento; apenas fecha a janela.
Jornalistas e escritores, não. Escrevem. E escrevem, às vezes, com um zelo exagerado, como quem acha que o mundo precisa daquele texto para compreender o sentido da vida. O jornalista acorda achando que precisa explicar os acontecimentos do dia. O cronista, pior: pensa que vai tropeçar numa epifania em cada esquina. Ambos, no fim, disputam quem consegue ser mais sério a respeito de coisas absolutamente banais — o trânsito, o clima, o silêncio de alguém numa mesa de bar.
E, no entanto, há algo de ternamente ridículo nisso tudo. Porque o mundo segue sua rotina de guerras — sejam cambiais ou nas trincheiras — indiferente ao jornalismo ou à literatura. As árvores vão continuar a perder folhas independentemente das manchetes de jornais. E aquele homem com o jornal impermeável ao conteúdo talvez tenha entendido algo essencial: nem tudo precisa ser lido, muito menos escrito. Desconfio que o jornal vá virar penico de pet.
Mas aqui estou eu, obviamente, escrevendo sobre isso — o que só confirma a tese de Paulo Mendes Campos com um certo constrangimento elegante. No fundo, talvez a gente escreva só por birra mesmo. Um péssimo poeta diria que “escreve para se aquecer”, explicando que não se trata de aquecer o corpo, mas alguma outra coisa que, “no outono, insiste em esfriar”. Para fechar o raso poema sentenciaria: “a palavra vira cachecol”.
O analfabeto, nesse sentido, talvez seja mesmo um privilegiado. Mas nós, com nossas manias e metáforas, seguimos prestando atenção no vento — porque, se não o fizermos, quem é que vai levá-lo tão a sério?





