Não se faz mais 1º de abril como antigamente. Pensei que teria sido acordado ontem com uma enxurrada de “feiqui-niuzis”, como diria o saudoso Mussum, o mais engraçado d’Os Trapalhões. Pensei que receberia pelo zap-zap fotos mostrando Lula e Bolsonaro juntos, numa mesa de bar, de uma dessas tantas esquinas democráticas Brasilzão afora, ouvindo Cartola mandar brasa cantando “sabes que vou partir com os olhos rasos d’água e o coração ferido.”
Contudo, no fatídico — e sem graça — 1º de abril deste ano, recebi apenas uma foto, a de um ex-prefeito de Caxias, reconhecido por sua bravura contra tudo e todos, armado das escrituras sagradas e conservador de coração, vestido com um terno vermelho-comunista, adornado na lapela pelo brasão das Repúblicas Socialistas Soviéticas. “Feiqui-niuzis”, por óbvio, mas eu ri. E só assim lembrei que ontem era o Dia da Mentira, também conhecido como o Dia dos Bobos ou o Dia dos Tolos.
Dizem, a chacota se tornou popular a partir da França do Século 16, quando o rei Carlos IX resolveu adotar o calendário gregoriano em 1564, trocando o Ano Novo de abril para o dia 1º de janeiro. Só que, seja por esquecimento ou birra, quem seguiu comemorando o novo ano em abril virou alvo de deboche, sendo chamado de “os bobos de abril”. Tá vendo? São sempre os franceses inventando moda.
Acho — e é só uma boba teoria —, que o Dia da Mentira não pegou cá em terras invadidas pelos portugueses, porque o engano, a sabotagem, a canalhice e todas as diversas variações do mesmo tema correm pelas veias abertas dos rios que nos cercam. Mentir, em sua essência, pelo menos a bíblica, é comparável ao demônio, o anjo caído feito inimigo divino. Jesus, citado por seu melhor amigo, o apóstolo João, descreve o diabo como “pai da mentira”.
A mentira, caros leitores e leitoras, sobretudo cá no Brasil varonil, é moeda de troca. É comparável ao ouro, ao Ouro de Tolo, como cantava Raulzito: “é você olhar no espelho, se sentir um grandessíssimo idiota / saber que é humano, ridículo, limitado”.
Por aqui, basta lambuzar-se em dinheiro sujo, roubar dos velhinhos e das velhinhas, surrupiar, trapacear, mentir nos depoimentos quando alvo das investigações e, depois, dizendo-se arrependido, contar uma lorota qualquer, suplicando trocar o “não fiz nada” por um punhado de “verdades” sob a chancela de “delação premiada”.
A regra é clara: se mentir não ajudar, o cidadão pode recorrer à delação premiada, trocando o “duvidoso” pelo “certo”. Às vezes, esse outrora mentiroso, depois de um banho de “justiça” como esse, vira herói, digno de estátua erguida em praça pública.






