Plagiando o samba de Assis Valente, o presidente dos EUA anunciou e garantiu que o Irã iria se acabar. O extermínio do antigo povo persa viria por meio de uma bomba atômica? Talvez. Entre o fato consumado e a mentira lavada existe um abismo chamado “especulação”. A mesma trucagem, aliás, que os agentes do mercado se utilizam pra mandar subir e baixar os preços nas bolsas de valores mundo afora.
Assis Valente, mais um dos nossos heróis desconhecidos, compôs sambas que ficaram imortalizados na voz da portuguesa de coração brasileiro e musa dos ianques, Carmen Miranda. Uma dessas canções é justamente a que leva o título dessa crônica de tempos crônicos: E o mundo não se acabou: E o mundo não se acabou.
A música foi composta em 1938, numa sacada irônica do sambista Valente, logo após a estrondosa repercussão de um programa de rádio da CBS, nos EUA, quando o jovem Orson Welles resolveu noticiar uma invasão alienígena no país dos ianques. O causo virou um pandemônio e o desespero tomou conta de todos, desde o mais cachaceiro até a mais alta cúpula do exército.
Enquanto isso, dentro do estúdio, Orson Welles ria-se por dentro, porque estava apenas interpretando trechos do livro A Guerra dos Mundos, romance de ficção científica do britânico H.G. Wells, lançado em 1898.
Ou seja, 40 anos após ser publicado, Welles abriu o microfone da rádio, interrompendo a transmissão de um noticiário, pra narrar a queda de um cilindro metálico, de onde, ao se romper na superfície da Terra, saíram marcianos disparando raios de suas armas, matando todos os seres humanos que encontravam pela frente. Nada disso real, assim como nos filmes de extraterrestres que Hollywood produz às pencas.
Hilário, não fosse perturbador. Nada diferente do que ocorre atualmente já que as remotas bravatas de ontem são as fake news de hoje. Assis Valente surfou nas ondas radiofônicas do Welles e, com requintes de brasilidade, colocou o pânico pra sambar em traje de maiô.
Até agora — pelo menos enquanto fecho essa crônica tecida em tempos crônicos — o mundo não se acabou. Mais dia, menos dia, porém, logo tudo vai pelos ares, isso é certo. E vamos todos virar pó de estrela.
Até lá, assim como no samba do Valente, vai ter muito político “beijando na boca de quem não devia” e “pegando na mão de quem não conhecia”, porque até as decisões mais difíceis no campo diplomático são tratadas na base da paixão — mortal — posto que é chama. Fosse na base do amor, seríamos imortais, como prezam os iluminados. Mas isso é assunto pra outra crônica anacrônica, dia desses, quem sabe!? Isso, se o mundo não se acabar...


