Há 27 anos, Ana Luiza Azevedo lançava o curta-metragem Três Minutos a partir de um roteiro de Jorge Furtado. A sinopse é simples e direta, apesar de esconder dentro dela uma doce e irônica complexidade — assim como a vida ou as crônicas que tentam imitá-la: “Três minutos. O tempo de passar o bastão e correr 1600 metros. De cozinhar um ovo. O tempo de tomar uma decisão que pode mudar a sua vida, antes que caia a ficha.”
Através dessa especulação cinematográfica, Ana Luiza retirava um véu de ignorância dos nossos olhos. Assim como fazem as profetisas. É que no início dos anos 2000 ainda ignorávamos que, logo ali, a partir da aceleração gerada pelas engrenagens cibernéticas, seríamos condicionados a correr atrás da máquina — literalmente. Desde então, quem não consegue lidar com essa vida acelerada tem sido devorado — sem pudor, nem arrependimento.
Os três minutos de uma ligação telefônica num orelhão, como no curta da Ana Luiza, foram transformados em áudios de 30 segundos (ou menos), que podem ser ouvidos em velocidade dobrada.
O tempo de deslocamento entre a minha casa, o meu trabalho ou o boteco até um orelhão mais próximo servia para que pudéssemos esfriar a cabeça e repensar o que dizer — e até se realmente deveríamos ligar. Talvez seja por isso que atualmente percamos tanto tempo entre a raiva e o arrependimento, porque nos falta o “entre”.
A “pressa é inimiga da perfeição”, sentenciava meu avô. Só que vai dizer isso para o pedestre tentando atravessar a Sinimbu num horário de pico! Com raríssimas exceções, temos 15 segundos (ou menos) para correr entre uma calçada e outra, nos livrando da morte por atropelamento. Perfeição, hoje em dia, é chegar vivo do outro lado da rua.
Se os reguladores de trânsito concedessem aos pedestres três minutos de travessia (o que daria tempo de ouvir uma música dos Ramones na íntegra) certamente os motoristas avançariam suas máquinas velozes contra os nossos corpos. Ou seja, não são dias, nem horas, nem minutos: são apenas alguns segundos que nos separam dessa travessia entre a vida e a morte. E esse “entre” parece abreviar-se a cada segundo que passa.





