“Nem no dia de são nunca”. Pessimistas de carteirinha usam essa máxima para denunciar suas incredulidades. Desconfiam de tudo, não só da existência de vida extraterrena; duvidam também que os seres humanos já pisaram e, novamente, vão pisar na Lua.
Há quem acredite na cura do soluço. Eu desconfio. Imagina só a manchete do Pioneiro: “Começa hoje a campanha de vacinação contra o soluço”. Não, né? Meus pais me ensinaram duas lições infalíveis contra essa praga. A primeira é prender a respiração por uns 30 segundos. Se não funcionar, a segunda dica é beber sete goles d’água, também segurando a respiração. Vai por mim, é batata! Não cura, mas resolve o pepino.
“Ninguém planta batata esperando colher laranja”, diz o profeta da televisão, enquanto sacode a Bíblia. “Nem no dia de são nunca”, provoca ele, arrancando gargalhadas dos fiéis. E se fosse possível injetar no solo um elixir criado a partir de mutações genéticas? Uma ideia dessas só pode brotar na mente de um descrente (como eu), que não fica satisfeito com a natureza das coisas. Agora, já pensou em comer um tubérculo com um gostinho cítrico? Vai que vira a nova onda.
Quando criança, meu pai ouvia dizer que o Brasil seria o país do futuro. Infelizmente, ele morreu sem ver a profecia se cumprir. E olha que ele era um homem de fé, católico praticante, leitor assíduo da Bíblia. Mais ainda, fez sua parte ao buscar conhecimento acadêmico, formando-se em Economia e gastando o tempo de vida numa empresa a fim de acelerar o curso das máquinas rumo ao futuro. Descrente, afirmo (desculpa aí, pai), que “nem no dia de são nunca” seremos o país do futuro. Do jeito que vamos nem o planeta Terra tem futuro.
Os Replicantes, profetas distópicos do punk pampa do sul, há anos pregam que estamos destinados a ancorar no Vórtex: “Aonde o Sol já virou Lua”. Descrente, acredito ser mais fácil o Sol virar Lua do que colonizarmos outros planetas. Se bem que, eu toparia viajar numa excursão para Marte — com todas as despesas pagas —, só curtindo a paz e o silêncio, sobrevivendo de ócio criativo.
Lembro que no epicentro da pandemia havia um espírito pairando no ar, seres humanos acreditando que sairíamos daquele horror mais sensíveis, empáticos, adornados por uma aura de pureza e caridade benevolente. Pois é... (diz aí: “Nem no dia de são nunca”). Estamos à beira da Terceira Guerra Mundial, os que não morrem de tiro, bala e bomba, padecem de fome, frio e sede. Enquanto uns choram, outros vendem lenços.
Sei lá, viu... A sensação que eu tenho é que o futuro anda correndo atrás das sombras do passado. Um dia vai ser diferente disso? Nem hoje, nem amanhã, nem que a vaca tussa. Só se for no dia de são nunca.


