O poeta e ensaísta francês Christian Bobin (1951-2022), sujeito afeito ao silêncio e devotado a cultivar jardins floridos, cravou essa sentença (roubada depois pelo português Afonso Cruz, figurando como epígrafe de O Vício dos Livros):
“Não há nenhuma diferença entre a leitura e a escrita. Quem lê é autor daquilo que lê”.
Ler é navegar por mares nunca dantes navegados; mesmo numa segunda, terceira ou quarta leitura da mesma obra. Lê-se com a própria vida, com o pavor de reconhecer-se sanguinário como um serial killer, ou domado pelas incertezas dos personagens que estão impressos nas páginas de um livro.
Um romance, uma novela, um conto, um poema — um verso que seja — têm, pelo menos, três camadas de leitura.
Uma delas é superficial, quase banal, nem por isso literal, e muitos param nessa fase porque lhes basta.
Numa segunda camada é possível acessar informações que ajudam a construir um sentido com base nas trocas sutis entre o enredo e a vivência do leitor.
Contudo, é na terceira camada que o cataclisma nos alcança. Nessa fase, os leitores são conduzidos através de portais que ampliam os sentidos a ponto de uma leve brisa provocar arrepios e gozos fabulosos.
Ler é um ato de rebeldia, é o mais próximo do ideal utópico anarquista. Posso ler quanto tempo eu puder — e cada minuto dentro de um livro é um minuto a menos servindo aos caprichos e desejos de outrem. Ler é o primeiro passo para discernir a morte da vida, o ourives do falsificador.
Nesse sentido, como numa leitura circular, Christian Bobin volta à luz da cena. Num tempo em que parte dos escritores passa mais tempo exibindo-se, glorificando deuses e deusas algorítmicas, colando em si selos de afirmação virtual — mesmo sem perceber — mancham sua escrita com essas chagas. Porque antes do texto em si, o leitor vê a imagem do escritor, ou da vida que ele vende viver.
Numa entrevista à revista francesa Le Monde des Religions, em 2007, Bobin, que de bobo não tem nada (sorry pelo trocadilho), disse:
“Nada é mais deslumbrante do que pegadas de pardal na neve: elas permitem que você veja o pássaro em sua totalidade. Mas, para isso, você precisa de neve. O equivalente à neve na vida humana é o silêncio, a discrição, essa distância que permite uma conexão verdadeira”.
Enfim, roubando a metáfora do criador, assino com o relator: “quem lê é autor daquilo que lê”. Né, não, Machado?! Ao escritor, as batatas; aos leitores, o néctar dos tubérculos.




