Noutro dia escrevi sobre o voo do Caio F. em revoada com seus dragões; apesar do céu cinzento, pesado como chumbo, a cena permanece, talvez fruto de uma febril letargia que de vez em quando me visita.
Escrevo ainda inebriado pelas memórias e recentes leituras dos contos do Caio, enquanto assisto pela tevê mísseis cruzando os céus do Irã, antiga Pérsia de Ciro, o Grande; mísseis também avançam sobre Israel, a Terra Prometida dos Hebreus, conquistada a ferro e fogo por Josué e Caleb. Mesma terra onde Davi, o Pequeno, venceu Golias, o Gigante.
Logo ali — depois da Páscoa, das prateleiras recheadas de ovos de chocolate e da pilha de chocotones que sobraram do Natal, e do Dia das Mães, com as debochadas ofertas de panelas e demais itens de cozinha e eletrodomésticos — virá a Copa do Mundo. Copa que promete ser a mais bizarra de todos os tempos.
São três sedes: México, Canadá e Estados Unidos. Ironicamente, Trump, presidente dos EUA encouraçado com as armas de um Imperador 4.0, já meteu a mão com o Canadá e o México antes mesmo de a bola rolar. Depois disso, entre blefes e tarifaços, Trump prendeu Maduro e, agora, investe alto para exterminar o regime fascista do Irã com uma atitude não menos fascista.
O resultado imediato é que o Irã não deve jogar a Copa. “Eu realmente não me importo se o Irã não jogar”, disse Trump em entrevista replicada pelo g1. Nem o Irã, nem os EUA, nem metade das seleções que vão disputar o certame, né, Trump, pois elas não chegariam sequer à segunda fase da Libertadores.
Pode rolar um atentado nos EUA durante a Copa do Mundo? Improvável, mas não impossível. Seria um desastre, digno de mais um triste capítulo na história do futebol maculado por guerras sangrentas. Pobre Paraguai que pode ficar no fogo cruzado, porque joga contra os EUA no dia 13 de junho, em Los Angeles, a meca do cinema.
A trilha sonora do fim dos tempos não é só triste e dramática, ressoa como uma cacofônica sinfonia de ranger de dentes, vidros estilhaçados, guitarras distorcidas e motosserras, e tudo isso embaralhado por gritos de terror ensurdecedores.
Mesmo assim, há quem diga que estamos em evolução. Prefiro trocar a palavra “evolução” pela expressão “extinção da espécie”.
Dia desses o mundo — ou parte dele — estava reunido em Belém, pensando nas metas possíveis para estancarmos a sangria desatada do planeta Terra. Só esqueceram de avisar os mandatários que têm fetiche por bombas e mísseis. Desse jeito vai ser um milagre dantesco se chegarmos à Copa do Mundo em 2030.
Entre mortos e feridos, ninguém se importa se a camisa 10 canarinho vai ficar com o dançarino Paquetá ou com o menino Ney.





