Caminhando por aí, desviando dos tropeços que a vida nos impõe, lembrei-me da cena de um filme do Jim Jarmusch. Dead Man (Homem Morto, na livre tradução), de forma bem sucinta, conta a história de William Blake (Johnny Depp) que viaja do leste para o oeste americano por causa de uma oferta de emprego. Perdido, gravemente ferido e perseguido por pistoleiros, ele encontra um indígena chamado Ninguém (Gary Farmer), que acredita que Blake seja o homônimo poeta inglês.
Filmada em preto e branco, a narrativa nos leva pra dentro dos típicos filmes de faroeste, numa belíssima e envolvente trilha composta por Neil Young. No entanto, esse lance todo de filme de bang-bang é uma bela pista falsa armada pelo Jarmusch. Porque importa mais a travessia de Blake, de terno xadrez, óculos e cartola, sendo conduzido por um indígena deixado pelos seus pra viver sozinho pelo mundo do que o tiroteio entre mocinhos e bandidos.
Ridicularizado pelos seus como aquele que “fala muito e não diz nada”, Ninguém cavalga com Blake, floresta adentro, rompendo aos poucos os laços entre o mundo concreto e o mundo espiritual. E aí vem a dita cena inesquecível, pelo menos pra mim, sempre que acesso meu baú de memórias afetivas por algum gatilho qualquer. Hoje, no caso, foi essa caminhada pelo Centro da cidade, enquanto a neblina descia, assentando-se sobre os meus ombros.
“Preparei sua canoa com ramos de cedro. É hora de você partir, William Blake. Hora de você voltar para o lugar de onde você veio”, diz Ninguém, fitando Blake deitado numa canoa. Despido das vestes de um típico homem branco, investido agora das roupas de um indígena, Blake inicia seu trajeto solitário sendo levado pelo curso do rio.
O que me pega nesse filme não é a iminente morte, porque dessa ninguém escapa. O sentido, pra mim, é que ao longo do caminho, assim como Blake, morremos um pouco aqui, um pouco ali. Morre-se, no caso, deixando de lado hoje, aqui e agora, o que idolatrávamos até ontem. A vida nos impõe escolhas. Da prosaica dúvida entre xis-bacon ou jantar vegano; casa ou apartamento; cerveja ou vinho, até as decisões mais profundas como Luiz Inácio ou Flávio Bolsonaro; democracia ou teocracia.
Entre desejo, gosto, vontade, prazer ou vaidade, precisamos aprender a lidar com uma palavra quase sempre deixada de lado na hora de escolher o que realmente importa nessa vida: discernimento.
Quem sabe um “ninguém” como esse indígena do filme do Jarmusch não nos ajude nessa missão nada prosaica. Até porque, em Dead Man, Ninguém é o único a discernir os tempos das estações, a concretude do mistério. E mais, só Ninguém viu o poeta William Blake através do patético William Blake.



