Há quem transite pelas livrarias, sebos, feiras do livro e bibliotecas públicas ou particulares, como um apreciador da alta gastronomia. Como se cada página pudesse ser saboreada com a fome daquele momento. Não importa se é algodão-doce, como uma despretensiosa e divertida frase de Ruth Rocha, ou em um festival de sushi para comer lendo haicais escritos por Leminski.
Cada prateleira oferece um sugestivo banquete para atender aos mais diversos gostos. É possível encontrar sabores ora delicados, ora apimentados, refinados e até revigorantes. E sempre que a literatura deságua na gastronomia, é de dar água na boca.
Devorando livros, é possível encontrar mil e uma citações de comidas e bebidas e até de parábolas sobre os famintos, como no sermão do pai à mesa em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar; deparar-se com Um prato vazio, a faca de um lado, do outro lado o garfo, em conto de O Herói Devolvido, de Marcelo Mirisola; ou ainda saborear “um frango assado antes da guilhotina”, trecho extraído das Memórias Gastronômicas, de Alexandre Dumas.
Paulo Ribeiro escreveu, entre tantos, um livro chamado Cozinha Gorda. A narrativa do autor de Bom Jesus abre com uma lista de ingredientes colada na geladeira:
- “1 ovo inteiro cozido
- 1 batata média
- 3 colheres de feijão cozido
- 4 colheres de sopa de legumes cozidos
- 2 colheres de óleo
- 500ml de caldo de carne”
Ribeiro não descreve o modo de preparo. Isso não impede, no entanto, que as papilas gustativas se insinuem. O certo é que esse “feijão cozido” foi selecionado à moda João Cabral de Melo Neto. O poeta de Morte e Vida Severina revela sua verve gourmet em Catar Feijão:
“Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.”
Na coletânea Mesa Voadora, Luis Fernando Verissimo revela um traço bem particular — e cômico — dos chineses para demonstrar que gostaram de um ensopado que lhes foi servido.
“A sopa nos dá, como nenhum outro tipo de comida, a oportunidade de demonstrar nosso prazer à mesa. Os chineses, inclusive, consideram falta de educação tomar uma sopa em silêncio. Deve-se sorvê-la, ruidosamente, indicando para quem quiser ouvir, mesmo da rua, que ela está ótima e que a vida, tirando algumas passagens de extremo mau gosto, vale a pena ser saboreada.”
Por essas e outras, a frase citada por Carlos Heitor Cony em Sabor de Família faz muito sentido nessa comunhão entre gastronomia e literatura: “O prazer de um sabor centra-se na língua e no céu da boca, embora com frequência não comece ali, mas na lembrança”.


