Das duas uma: à meia-noite do dia 31 de dezembro vai ser “feliz ano velho” ou “feliz ano novo”. Parte dessa escolha é teórica, naturalmente. Porque ao desejar para si — e para os seus — um feliz ano novo, a ideia é encarar 2026 de frente, crendo (imaginando, supondo, vislumbrando) que o futuro tem, com o perdão da redundância, futuro.
Agora, se você é daqueles (como assumo que já fui um dia) que deseja feliz ano velho no brinde da virada, olhos fixos no retrovisor, revendo e revendo cenas do que um dia já foi presente, te indico terapia, não como consolo, mas como ajuste de contas.
Escrevo isso e penso em Galeano e sua Carta ao Senhor Futuro. Eu sei que citar uma carta é como estar com os dois pés no passado, se bem que ainda exista quem escreva cartas, mesmo que as envie por e-mail (outro indicativo do passado, mas enfim). Nessa carta, cujo destinatário é um (in)certo Futuro, Galeano escreve: “Você, misterioso senhor, é a promessa que nossos passos perseguem querendo sentido e destino.”
Quem desconhece o sentido da vida do Galeano (1940-2015), jornalista e escritor uruguaio, talvez não consiga pescar as metáforas. De todo modo, me segue que te explico.
Haverá mesmo futuro? Como imaginar que o planeta pode simplesmente explodir, sem aviso prévio, sem que a ciência decifre os sinais? Galeano escreve ao misterioso Futuro: “Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam, como se fosse uma bola. Jogam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão.”
Os senhores da guerra, sempre eles, né, Galeano? Há sempre um senhor da guerra apontando sua fúria contra a nossa fuça. Entra ano e sai ano, mortos são empilhados em meio aos escombros das inúmeras batalhas por território. Galeano sintetiza, com acento poético, mesmo com o olhar cravado no horror: “Mais cedo do que tarde o mundo poderá ser não mais do que uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem ar e sem alma.”
Veja bem, imagino, suponho, vislumbro que 2026 há de ser um bom ano, que ainda teremos planeta para habitar, que as eleições terão debates frutíferos (dentro e fora das redes), que o Caxias vai subir de nível para jogar a série B com o Juventude e que os inimigos vão enviar rosas brancas uns aos outros celebrando a paz.
Esperançoso, faço minhas as palavras de Galeano, ao encerrar a Carta ao Senhor Futuro: “Que o senhor nos ajude a defender a sua casa, que é a casa do tempo. Quebre-nos esse galho, por favor. A nós e aos outros: aos outros que virão depois, se tivermos depois.”
Segue o baile, gaiteiro. Um brinde aos que me leem e também aos que não me leem.
Senhor Futuro, pega leve com a gente, por favor.






