À borda. No limite. À beira. Confim. Entre a terra firme — firme? — e o penhasco.
Dramático? Com trilha sonora do Tom Waits, sim. Visto do outro lado é só uma piscina com borda infinita e com vista pras montanhas. Lugar de descanso; refúgio no mato pra fugir dos implacáveis seres humanos.
Nem tudo é o que parece. Por vezes é do breu que vem a iluminação, né, não, Waly Salomão?
“quando quero saber o que ocorre à minha volta
ligo a tomada abro a janela escancaro a porta
experimento invento tudo nunca jamais me iludo
quero crer no que vem por beco escuro”
Na cartilha da vida, circunscrita, atada no cabresto, é preciso buscar a luz, render-se diante da cruz – e toda religião tem a sua — e devotar-se por inteiro às sagradas escrituras.
Todo rito é uma passagem; antes do mergulho nem parece que vai doer.
“Ó Deus, podemos gemer sem culpa?”
Adélia, a devota. Sempre Adélia a nos redimir. Adélia reivindica a luz, apesar das trevas. Cacaso, o marginal, vê na treva lugar de consolo:
“Este mergulho na treva
ainda é meu consolo.
Vida, que sei de ti?
Talvez nada, talvez nem isso…”
Nem tudo é o que parece. Pelo menos à primeira vista. Antes de pisar o pé na borda é impossível dizer se logo ali no horizonte se revela um oásis ou um penhasco.
Nem todo desfiladeiro é morte, pode ser travessia de tropeiros que carregam mantimentos. Assim como nem todo oásis é paraíso, pode ser só miragem.
Clarice, a misteriosa, provoca:
“Como começar pelo início se as coisas acontecem antes de acontecer?”.
Nem toda palavra é um convite; é preciso estar atento e forte. Hilda, a sagaz, bota ordem no coreto, silenciando os desconcertados:
“É triste explicar um poema, é inútil também. Um poema não se explica. É como um soco. E, se for perfeito, te alimenta para toda a vida.”
*****
Logo ali, no dia 1º de janeiro eu tô de volta, vou ver se o poema brotou.


