Nunca vi. E nem sei se é possível. Se bem que depois do primeiro homem pisar na lua nada mais parece conter a vaidade humana. Sei que existem templos de pedra, há monumentos imensos, monolitos colossais etéreos e ainda tão impenetráveis que poucos se atrevem a especular pra que servem.
Nunca saberemos qual foi a primeira pedra, a pedra que deu origem às montanhas, serras, cascalhos e farelos de pedra. Desconheço também quem é a dita “pedra de tropeço” que tanto se fala por aí. Talvez a pedra mais difamada desde os idos tempos bíblicos.
Nunca vi pedras conversarem. Desconheço se há uma linguagem que as une; como se reconhecem; de onde vêm; quais paradoxos carregam nos ombros. Só sei que cada pedra é única. Só se parecem quando afligidas pela mão do homem _ menos pelos escultores (esses, nem todos) e pelos indígenas, que interagem com a natureza mais íntima das pedras.
As pedras não reivindicam territórios; não veneram outras pedras; não trucidam; não perseguem; não enforcam; não atropelam; não estupram. As pedras sabem ser pó; não, a humanidade não; a humanidade _ talvez _ nunca saberá ser pó.
Ser pó é reconhecer-se etéreo, não eterno. Ser pó é linha de fuga; curva de rio; desvio padrão; vinha afrodisíaca. Não há filosofia que ancore as pedras, cimentando sua existência por todo o sempre.
As pedras não suportam a opressão das muralhas _ mesmo as milenares. De alguma forma _ algum dia _ as pedras vão rolar, libertando umas às outras, dispersando-se até virarem pó.
A pedra basta em si mesma. A rocha imensa, incorporada em montanha, mesmo sem expressar, reconhece-se cascalho e pó. Se há vales por onde trafegam rios é porque um dia a rocha rachou e despencou, fragmentando-se em incontáveis pedaços.
Nada interrompe o curso das pedras. Nada. Nunca.
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Para Marcelino Freire, o escalavrador de romances megalíticos.





