Qual é o sentido da crônica sobretudo nesses dias apocalípticos? Tem COP lá em Belém? Tem, sim, senhor! Vai salvar o planeta? Cientificamente é possível. A humanidade deseja estancar a sangria? Tenho certeza de que a maioria quer mais que o planeta se exploda. O lixo que produzimos não cabe mais debaixo do tapete, vaza pelas artérias entupidas da Terra e já divide nossas atenções com os astros e as estrelas no azul desbotado do céu finito.
A crônica tem sido silenciada pelo ruído das sirenes que se atrasam para salvar atropelados; das motocicletas dos entregadores de pizza que ziguezagueiam lutando contra a morte para não serem ceifados pelo caminho; dos zumbis se arrastando pelo asfalto quente, mendigando moedas para não morrerem sóbrios; do choro desesperando de tantos pais enterrando os filhos; e de infinitos tiroteios, de balas ricocheteando e fulminando quem estiver pela frente e, principalmente, pelas costas.
Evoluímos. Daquele Homo Sapiens que vivia em cavernas, grunhia, vociferava e devorava à força os mais fracos, alcançamos outro “patamar”. Passamos a ignorar que boa parte dos seres humanos ao nosso redor segue morando em cavernas e — esses — continuam a ser os mais fracos devorados pelos mais fortes.
Em vez de buscarmos diálogo, estabelecendo pontes para sublimar distâncias, de modo geral, uns vociferam contra os outros. Argumentos zero, como se desconhecêssemos o que de fato nos trouxe até aqui. Mais do que o domínio do fogo, a criação da roda ou ainda a capacidade de nos reproduzirmos como se fôssemos coelhos, chegamos até aqui por conta da criação e domínio da linguagem, desenvolvendo raciocínio, consciência, moral e ética.
Por isso, insisto, serve de que a crônica se — no meio do caminho — haverá sempre um duelo de primatas, desferindo golpes uns nos outros, para ver quem vence, seja no grito ou na dor? Pouco importa, desde que destile horror e tragédia. Depois da COP 30, que, assim como a crônica, não tem serventia nenhuma para a maioria das pessoas, o mundo continuará a registrar o aquecimento global. Vamos dobrar a meta de uso de venenos e pesticidas, injetando na terra o que logo encontraremos ali no mercado da esquina. Continuaremos a adoecer de dentro para fora e vice-versa.
Serve de que a crônica se tem gente brincando de fazer selfie e comprando remédios de ervas engarrafadas nas feiras (ou férias) de Belém enquanto a COP30 segue seu rito? Cada um atravessa o apocalipse como consegue. Eu insisto na crônica, mesmo sendo soterrado pelo lixo e por tantos ruídos que brotam de nossas selvas de pedra.
Só peço um favor. O último a ficar de pé, antes de apagar a luz, por favor, plante essa crônica no asfalto fissurado.





