Feliz do homem que morre sem esquecer de si mesmo. Pensei nisso enquanto pensava sobre a incapacidade de grande parte das pessoas em reconhecer as maravilhas do telencéfalo, responsável pela memória, pelo pensamento e por aí vai. Daí lembrei do meu avô, o seu Floriano.
Se por vezes me irrito porque não tenho mais a memória daquele guri, rato de locadoras, que devorava as obras do mesmo cineasta até esgotar sua filmografia, sabendo os nomes dos atores, produtores, diretores de arte e de fotografia, porque tudo importava. Se por veze me irrito porque esqueço até do nome dos livros de meus escritores favoritos, ou de nomes de ruas e até mesmo de quanto gastei no último almoço. Imagino a aflição do meu avô, percebendo a vida esvaindo-se, perdendo-se na retina da lembrança cada dia mais nebulosa.
Comerciante, meu avô distinguia os mais diversos tipos de queijos só pelo olfato. Torrada? Pizza? Bauru? Tudo sem queijo. Sempre. Porque ele odiava comer queijo. Só que daí, com o avanço do Alzheimer, memórias, desejos, gostos e cores foram bagunçados. Certa noite, meus pais estavam à mesa com meus avós, o seu Floriano e a dona Nair. Meu pai, brincalhão como sempre, perguntou ao meu avô se ele queria colocar queijo ralado na sopa de agnolini. Meu avô acenou positivamente com a cabeça. Insistindo no acolhimento, meu pai perguntou: “Gostou, vô?”. Faceiro, seu Floriano disse que sim.
Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Meu avô sempre foi fiel a si mesmo. Torcedor do antigo G.E. Flamengo, mais tarde convertido à S.E.R Caxias, católico fervoroso, sabia como ninguém fazer a limonada dos sonhos dos netos: super açucarada. Mais do que um bom comerciante, sabia cativar os clientes, com gentileza e bom papo. Casou-se com a dona Nair, com quem teve quatro filhos: Maria Helena, Mário Luis, Marco Antônio e Margareth Rita. E a eles foi fiel, seja na dor ou no amor.
Aos poucos, infelizmente, o Alzheimer foi “tocando o horror” dentro da mente do meu avô. Tocar o horror é o mais próximo do que consigo imaginar que tenha sido. Insisto na expressão, porque é mais do que se esquecer do nome do produtor executivo do Amarcord, filme do Fellini lançado lá por volta dos anos 1960 ou 1970. Sei lá, não lembro.
Num dia desses que nunca vou me esquecer, só se o Alzheimer vier tocar o horror, meu avô, como num passe de mágica, não reconheceu mais a minha mãe, no caso, a sua filha. Dali em diante, sempre que se encontravam no mesmo cômodo da mesma casa onde viviam juntos, o seu Floriano passou a tratar meus pais como vizinhos. Não sei como a minha mãe processou tudo isso. Porque o Alzheimer vira tudo de cabeça para baixo, agindo como um saqueador de memórias. Mas, arrisco dizer que o Alzheimer só não consegue tocar no amor, que a tudo supera.


