Na fila pra pagar — e até pra gastar dinheiro a gente mofa numa fila — ouvi o sotaque da atendente. Não, não era sotacôn-tálian, era espanhol. Daí me toquei, caiu a ficha. Hoje em dia, o espanhol virou a segunda língua do caxiense. Já ultrapassou o tálian. Na minha família já morreram quase todos que falavam dialeto. Inclusive meu pai, que falava espanhol fluente e trocava ideias em tálian com meus avós.
É a tal da globalização, dizem. Outros avisam que é desse jeito que o comunismo vai chegando. De um jeito ou de outro, a migração, as gentes que vêm e vão, revelam a vocação dessa terra. A vocação de Caxias é ser “terra de migrantes”. Hostilidades à parte, e é sempre importante que se diga que este território sempre foi hostil, dos kaingang aos italianos, dos senegaleses aos haitianos, dos venezuelanos aos poloneses, entre mortos e feridos (e isso não é uma metáfora), os migrantes sempre vencem.
Não me levem à sério. É só um devaneio. Mas eu acho que precisamos atualizar o Monumento ao Imigrante. Simbolicamente, as duas estátuas, de um homem e de uma mulher, lado a lado, representam um casal carregando a vida nas costas pra começar uma nova história na terra que um dia viraria Caxias. Sempre me disseram que o monumento se refere a imigrantes italianos. Como ali ao lado deles têm muito espaço vago, gostaria de sugerir que fossem instaladas mais estátuas, de todos os povos que aqui residem. A começar pelos indígenas kaingang.
Recentemente o Pioneiro noticiou: “Caxias do Sul tem imigrantes de 32 nacionalidades”. Ou seja, ao lado do famoso casal de imigrantes italianos, poderiam estar estátuas de outros 32 povos que têm ajudado essa cidade a prosperar. Afinal de contas, como meu avô já dizia: “Uma andorinha só não faz verão”. Nem o Pelé, tampouco Romário ou Ronaldo ganharam uma Copa do Mundo sozinhos. Romário diz que sim. Bem como alguns idólatras-narcísicos, cuja crença é divinizar um só povo, como os únicos que aqui viveram e viverão... ad aeternum.
Pra ti ver como Caxias mudou. Caiu de moda até a famosa pergunta: “de que família tu é?”. Porém, contudo, entretanto, como eu já escrevi certa feita: “Caxias tem muitas cidades dentro dela. Mas, no final das contas, mesmo jovem, é quase sempre a velha Caxias”. Felizmente — e graças ao João Tonus e sua turma —, ainda tem gente preservando o Talian, que até virou língua. Resta agora ensinarmos espanhol, kaingang, polonês, alemão, wolof (dos senegaleses) e até o crioulo haitiano, pra gurizada nas escolas.
Não me levem a sério, é só um devaneio. Agora vou ali tentar atravessar a rua sem ser atropelado mesmo caminhando sobre a faixa de segurança. E se o carro vier pra cima de mim vou bestemar como fazia meu avô.




