Fechado o livro é só um objeto. Sem vida. Fadado a juntar pó e alimentar traças. Conheço lares dignos de estampar capas de revistas onde os livros são adorno, principalmente os de capa dura. Servem pra decorar ambientes e impressionar os convivas. Ou até de porta-copos.
Aberto, um livro nem sempre é bálsamo ou afável. Pode ser desterro de pó, pedra e espinho. Por vezes, o enredo nos toma de assalto, esfregando na fuça a mais dura realidade, aquela que desejamos apagar logo depois de ser desvelada a nossa pífia ingenuidade.
Já escrevi aqui e ratifico: prefiro os livros às pessoas. Diferentemente do Figueiredo, contudo, prefiro as pessoas aos cavalos. Mesmo assim, tenho mais escritores favoritos do que amigos de fé, irmãos camaradas. Certamente, vou morrer sem ler todas as obras que desejo. E mais do que tudo — quase sempre — deixo de lado uma boa conversa pela companhia de um livro.
Tenho quase sempre um livro na mochila, porque nunca se sabe quando vou ficar trancafiado dentro de um elevador ou quando serei sequestrado por malfeitores. Ou ainda, quando, por descuido, posso ser convidado a me sentar na mesa dos pecadores. Por isso, minha cruz de salvação é o livro.
Nem todo livro revela verdades, alguns enfeitiçam seus leitores. Não porque sejam obras fantasiosas ou historinhas pra boi dormir. É que brotam por aí obras que recortam parte da História, deturpando fatos sacramentados, deixando de lado contextos em nome de pretextos furados, só pra lacrar na lista dos mais vendidos. Tudo culpa da pós-modernidade que embaralhou a ficção e a realidade. Fronteiras borradas, dizem.
E afinal de contas, ler pra quê? Se é só fuçar na bendita internet clicando aqui e ali pra encontrar facilmente alguém explicando o livro d’outr’alguém. Joga na IA e pede o resumo, é mais simples ainda. Nem precisa parar pra ler ou assistir ao vídeo de algum booktuber, é só acionar o modo “conversa”, que a atenciosa inteligência artificial te conta o enredo, como se estivessem num boteco.
Já comprei mais livros do que deveria. Gastei mais com livros do que o bom senso financeiro recomenda. Por vezes, só por fetiche mesmo, pelo prazer libidinoso de avançar página por página como reza a bíblia tântrica, imerso em um universo paralelo de puro êxtase.
Enfim, abrir um livro é sempre um ato corajoso. Até porque, como diz a Mafalda, personagem criada pelo cartunista argentino Quino: “Viver sem ler é perigoso, te obriga a crer no que te dizem”.
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Aproveito a deixa pra te dizer que começa nesta sexta-feira (26) a 41ª Feira do Livro de Caxias do Sul. Pinta lá!





