É sempre tempo de desistir. É sério. Sei que a sentença soa antagônica quando confrontada pelo manancial dos coaches de plantão. Mas eu prometo que vai fazer sentido. É que eu interrompi há pouco a escrita de uma crônica. Nela, eu discorria sobre a impressionante capacidade que algumas pessoas têm de irritarem outras. Não só no trânsito, mas na completude da vida. Do banal ao paranormal.
O assunto é delicado, eu sei, mas, na crônica que desisti de escrever, eu descrevia um sem fim de tipos irritantes. Por exemplo, todo mundo conhece alguém que lembra de um convidado irritante que só de entrar na festa já causa dor de barriga nos demais convivas.
Pois é, tem gente que nasceu com o dom da irritabilidade. A pessoa calada, irrita. A pessoa sorrindo, irrita. A pessoa falando, irrita. A pessoa dormindo, irrita. Ninguém sabe explicar, nem mesmo a ciência, a taróloga ou o pastor. Daí, no divã, a pessoa reclama: “Por que fui me casar com esse homem irritante?”. Daí, a psicanalista responde para si mesma: “Amiga, tem coisas que nem Freud explica”.
Na crônica que desisti de escrever eu falava de um outro tipo irritante, bastante encontrado nos supermercados, principalmente nos dias de pagamento do assalariado CLT. Na fila, um casal com seu carrinho abarrotado de alimentos entre outros supérfluos. Cada item sendo registrado com agilidade pela guria do caixa. Até que... “Amor, tu esqueceste de pesar o abacate. Vai lá pesar pra gente?”. Daí o marido esquecido vai até o setor de frutas carregando o solitário abacate.
A essa altura, antes do cabisbaixo marido voltar, não há mais nenhum produto para ser registrado, e a galera da fila começa a ver subir o nível de irritabilidade correndo pelas veias. Fechada a fatura, antes de efetivamente pagarem, o cara, observando que a esposa comprara uma nova pantufa, reclama (com a expressão de um guri pidão) que ela não escolheu uma para ele. “Tá bom amorzinho, vou lá pegar uma pra ti”. E a galera da fila, já sem paciência, começa a reclamar. “Tá cheio de caixa aí do lado”, retruca o maridão, cheio de pose.
Um ou dois minutos depois (que parecem uma eternidade na fila da irritabilidade), a esposa volta com duas pantufas de cores diferentes. “Amor, tu queres a pantufinha azul ou a pantufinha marrom?”. Mais irritante do que vê-la dar mais de uma opção ao marido é perceber que o cara não sabe dizer que, na verdade, não gostou de nenhuma. Contudo, antes que alguém da fila xingasse o cidadão, ele mesmo, reconhecendo a crescente irritabilidade da esposa, que gentilmente foi buscar duas opções de pantufas para ele, decidiu-se pela marrom.
Eu disse que era um assunto delicado. No final das contas, ainda bem que desisti da crônica. Porque sabe como é, né?! Vai que alguém que tenha dormido com o fiofó destapado tenha se levantado atrasado e ainda sonolento, por descuido, topado com o mindinho no pé da cama ou na porta do banheiro... Bah, certamente essa pessoa me xingaria quando chegasse nessa parte da crônica (que desisti de escrever). Eu mesmo ficaria p* da vida.


