Judas, o incompreendido. Pra muitos, o inominável, o abominável, o canalha, o desprezível. Geralmente, nos filmes bíblicos, os mesmos que retratam Jesus de olhos azuis, barba bem aparada e cabelo sedoso, Judas Iscariotes é o careca.
Judas virou maldito porque entregou Jesus. Na linguagem da rua, Judas é o X-9 do Novo Testamento, o cara que caguetou o Mestre. Contudo, ali no movimento social, político e de intensa reforma espiritual que Jesus vinha conduzindo com a galera das mais variadas estirpes, Judas era o tesoureiro da turma.
João, o apóstolo mais amado, teria dito ainda que Judas roubava dinheiro da sacolinha de ofertas. Que bafão, né? Tá tudo na Bíblia. Daí pra Judas entregar Jesus foi um tapa. Por um punhado de moedas de prata, Judas saiu do anonimato para entrar para a História como o dedo duro que levou Jesus ao cárcere, depois ao julgamento e, por fim, à morte de cruz. Como dizem, nem sempre um careca, mas quase sempre um careca.
Daí a explicação de porque Judas, o vira-casaca, teria sido considerado maldito a ponto de cristão nenhum mais batizar seu filho com esse nome. A morte de cruz logo virou o maior milagre nunca antes visto, porque Cristo ressuscitou. Mas e Judas? Que fim levou? Os apóstolos divergem sobre o assunto. Mateus (o cobrador de impostos) diz que, arrependido, Judas jogou as moedas no templo e depois foi se enforcar.
Já no livro Atos dos Apóstolos, que inspira até hoje a turma do fogo do espírito santo, diz que Judas, o X-9, comprou um campo com o dinheiro e, “caindo de cabeça, rebentou pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram”. De um jeito ou de outro, uma morte estúpida.
E Jesus? O que Jesus tem a dizer sobre Judas (careca nos filmes e cabeludo na pintura de Leonardo da Vinci)? Na Última Ceia, Jesus revelou a traição: “Em verdade, em verdade, vos digo que um de vós me há de trair”. E, dando um pedaço de pão a Judas, deu a letra: “O que tens a fazer, faze-o depressa.” Ou seja, Jesus, o onisciente, sabia da tramoia e autorizou Judas a entregá-lo. Na calada da noite, no Jardim do Getsêmani, Judas se aproximou de Jesus e beijou sua face. Mateus relata o encontro, citando o diálogo de Jesus com Judas: “Amigo, a que vieste?”
Pois é, Jesus chamou Judas de “amigo”. Só que “amigo” no grego é “hetaire”, que não tem necessariamente uma conotação afetiva, mas pode ser melhor traduzido como “companheiro” ou “camarada” (meio comunista, isso, né).
Enfim, Judas tem parte nisso? Até tem. Mas nada mudaria o que Deus havia escrito. Pelo menos é o que o Filho sempre dizia. E nada disso tem a ver com o filme Brasil, cujo roteirista vive tentando vestir carapuças bíblicas nos personagens da tragicomédia depravada da vida como ela é.
Até porque há sempre um incompreendido tentando se passar por anti-herói. Ou um careca sendo acusado de Judas.




