Tá ligado no “efeito manada”, também conhecido como “comportamento de rebanho”? O conceito reverbera de botequins a bancas de doutorado, passando por seminários psicanalíticos, além, é claro, das redes sociais transitando entre o real e o imaginário. Em resumo, sem lero-lero, não importa o caminho: aonde um boi vai, os outros vão atrás. Nem que seja direto ao precipício.
Lembrei disso depois da enxurrada de morangos revestidos por uma calda crocante que têm feito sucesso nessa temporada. Desde as mais requintadas pâtisseries às padarias de gosto duvidoso, além dos microempreendedores em dupla jornada, não há quem não esteja lucrando com a moda do último minuto.
No auge da febre do morango do amor, um brasileiro, dotado de telencéfalo altamente desenvolvido, resolveu inovar, afinal vivemos em um mundo “neopósliberal” onde cada um é empreendedor de si mesmo. Só que ele foi disruptivo demais. Perdido entre a profusão de fetiches e desejos, o cidadão foi parar no hospital. O motivo? Ao tentar impressionar uma mulher, sem prestar atenção na temperatura da calda avermelhada, ele acabou cristalizando sua genitália. Longe demais do leito de amor, deitado numa cama hospitalar, o cidadão chorou e broxou.
Na atual escassez de morangos, sem ser tão disruptivo quanto o cidadão da genitália cristalizada, sugiro uma nova iguaria: a gila do amor. Sei de gente que sente arrepios só de olhar o formato de um morango, tamanho o desejo que o fruto desperta. Mas, quem de vocês já partiu ao meio uma gila enorme? O que são aquelas sementes protuberantes, fundidas entre as ranhuras fibrosas... Sexy, não?
E o sabor da gila? Só se compara a um beijo roubado em um quarto escuro de uma festa neoliberal. Leva um tempo até as papilas gustativas entenderem, mas o que vale é a surpresa de não saber muito bem que gosto tem. De chuchu, talvez? Dizem. Imagina então essa explosão de sabores da polpa da gila dentro de uma crosta em tom vermelho paixão? Pena que o Dia dos Namorados foi no mês passado...
Quase ia me esquecendo do melhor exemplo de “efeito manada” desta década (fora as declarações apaixonadas para as celebridades políticas da ocasião). Na pandemia, tempo de morte, desespero e alucinação, do dia pra noite cidadãos começaram a comprar papel higiênico compulsivamente. Nunca entendi se ajudava a curar covid ou se era só pra provocar a inveja dos vizinhos, criando um certo desconforto com a possível escassez de um dos itens mais essenciais da higiene pessoal.
Pois é, em tempos de inteligência artificial e uma porção de máquinas eletrônicas fantásticas, seguimos pianinho a passo lento, sem olhar pra trás, rumo ao precipício, mais preocupados em comprar papel higiênico e morango do amor, do que no iminente fim da espécie humana, seja por bomba e tiro ou por qualquer outra hecatombe climática. Falando nisso, a inflação vai subir por causa do tarifaço do moranguinho do amor. Vi no Tik Tok.



