Raulzito, o Maluco Beleza do cancioneiro brasileiro, sabia celebrar as boas coisas da vida. Em Ouro de Tolo, a música que diz uma coisa querendo dizer outra, Raul entoava: “Eu devia agradecer ao Senhor / Por ter tido sucesso na vida como artista / Eu devia estar feliz / Porque consegui comprar um Corcel 73”.
Lançada em maio de 1973, Ouro de Tolo fazia referência a uma supermáquina esportiva da época. Fabricado pela Ford, no Brasil, entre 1968 e 1986, em 1973 o Corcel foi eleito “Carro do Ano” pela revista Autoesporte. Ou seja, era um objeto de desejo, principalmente da juventude desvairada. Até porque, justamente em 1973, a linha Corcel passou por uma reestilização, deixando as linhas mais parecidas com o Ford Maverick, além de um incremento na potência do motor.
Aqui, em solo caxiense, a cultura veicular tem raízes profundas no coração de famílias que celebram suas maravilhosas máquinas sobre rodas há gerações. Tivesse René Descartes nascido em Caxias (após a popularização dos automóveis, naturalmente), o mundo da Filosofia teria virado de pernas pro ar. Porque, em vez de cunhar a expressão “Penso, logo existo”, que buscava uma verdade indubitável, o caxiense Descartes teria dito: “Carro, logo existo”.
Avesso, oblíquo, obtuso, quase como uma caminhonete estorvando o trânsito, ocupando duas pistas da Sinimbu ou duas vagas de estacionamento, a irredutível verdade: “Carro, logo existo”, apesar de estranha, é indissociável do modus operandi do caxiense, assim como a queimada em pasto verde.
O carro (ou auto) para a maioria dos caxienses é mais do que um veículo ou um meio de transporte, é verbo em transe que dá vazão aos sonhos e desejos mais íntimos e profundos e, realizando-os, a felicidade vem como o desbunde de um delicioso e refrescante banho de cachoeira em tarde tórrida de verão.
Conheço gente que fica inebriada com o perfume de carro novo, principalmente se for o primeiro. Certa feita, um amigo distante, nascido em solo caxiense, mas que tomou o rumo da vida numa autoestrada para nunca mais voltar, confidenciou que dormiu uma semana dentro do auto novo, sorrindo com o perfume da novidade. Se é fetiche ou não, fica por tua conta.
Inspirado pelo futuro veicular do caxiense, celebro a ativação da cultura sobre rodas. Carro, o verbo em transe hipnótico, há de nos fazer lotar os parques automotivos que o município está semeando. Logo ali, menos distante do que se imagina, vai ser preciso criar a Festa Nacional do Auto para mostrar ao mundo o amor do caxiense por suas maravilhosas máquinas sobre rodas. Terra onde tudo que se planta anda sobre rodas, onde o pisca-pisca é acessório em extinção, mesmo antes da morte.






