Seja pelas regras de etiqueta, mero formalismo, TOC ou fetiche, confesso que entro numa boa briga na escolha do copo ideal. E longe de mim atacar de sommelier, não tenho cacife pra isso, nem mesmo paladar, muito menos olfato pra decifrar notas de sabor. Até porque, acho perda de tempo revirar pra cima e pra baixo o copo, deixando de usufruir do néctar alcoólico ricocheteando pelo meu sangue.
Seja num boteco, em casa ou no restaurante mais luxuoso, o copo de cerveja ideal é o americano. E tem gente que toma até café na padaria nesse mesmo copo. O que talvez pouca gente saiba é que o clássico copo americano, de 190 mililitros, apesar do nome, é uma criação brasileira, cuja produção se iniciou em 1947. A empresa Nadir Figueiredo conseguiu viabilizar a produção por meio de um maquinário novo, na época, importado dos EUA. Daí o nome “copo americano”.
Diz a lenda empresarial que a Nadir Figueiredo já comercializou mais de 6 bilhões de copos americanos. Tamanho sucesso comercial, além de ter sido eleito o “melhor copo” pra se degustar uma cervejinha, o objeto ganhou até espaço no Museu de Arte Moderna de Nova York como ícone do design e do estilo de vida dos brasileiros. Merece ou não um brinde?
E agora, o que melhor combina com uma boa (e por boa cada um entenda o que quiser) cerveja servida em um copo americano? Amendoim torrado bem salgado? Ovo de codorna? Azeitona? Porção de batata frita? Porção de aipim frito? Torresmo? Coxinha? Escondidinho de carne? Queijo coalho? Ou polenta frita? A lista é infinita.
E olha que nem sou tão vidrado em cerveja, assim, viu! Evito, sabe. Porque, pra mim, cervejinha gelada chama a cachaça pra bailar. É quase irresistível, tamanho equilíbrio entre potência e suavidade. Nem precisa ser uma cerveja especial, pode ser uma pilsen mesmo, desde que a cachaça seja envelhecida.
Falando em cachaça, hoje bebida celebrada, com selo de brasilidade, sabes que ela já foi tachada de bebida de marginal? Começou a ser valorizada a partir da Semana de Arte Moderna, em 1922. É verdade esse bilhete. Tanto é que Mário de Andrade defendia a cachaça como símbolo de brasilidade, estimulando que a bebida fosse servida durante o evento, numa tentativa de afirmar a identidade nacional. Vale ou não mais um brinde?
De copo em copo, assim caminha a humanidade. Desconheço outro animal vivente neste planeta que celebre a vida de copo em copo, reconhecendo sua condição de pobre mortal. Não ficaremos pra semente. A primeira verdade irredutível é: todo ser que nasce vai morrer. A segunda, estampada na placa de um cemitério em Paraibuna, no interior de São Paulo, e que aliás dá nome ao documentário do Marcelo Masagão, diz: "Nós que aqui estamos por vós esperamos". Um brinde aos que vivos estão e aos que já partiram.




