Eu tive uma ideia para a crônica desta semana antes de dormir. Parecia muito boa. De manhã, tinha desaparecido. Não devia ser tão boa. Ideias costumam parecer exageradas quando estamos quase dormindo. Poderia ser tão extraordinária que minha mente, por delicadeza, decidiu me poupar.
Tenho ouvido muita gente reclamar dos próprios esquecimentos. Às vezes a culpa é dos hormônios. Outras, das telas, do celular. Há sempre um culpado à mão. Somos menos dispostos a aceitar que algumas coisas vêm de dentro.
Quando uma criança diz algo surpreendente, alguém pergunta:
– Onde você aprendeu isso?
Como se fosse impossível ela ter pensado por si mesma. A espontaneidade parece exigir comprovante de origem.
Eu já estava pronto para culpar as redes sociais e a inteligência artificial pelo empobrecimento da imaginação. Sempre achei que boas criações nasceram do tédio. Uma criança com três gravetos e uma tarde vazia inventa um mundo.
Um adolescente com um tablet “farma aura”.
Escrevendo, lembrei da ideia.
Antes de dormir, imaginei um futuro em que robôs controlados por inteligência artificial aprenderam a fabricar outros robôs. No meu futuro já não havia humanos. Tínhamos desaparecido, eliminados pelas máquinas. Naturalmente, administravam tudo com perfeição. Recursos bem distribuídos, desperdício zero, decisões racionais. Nenhuma guerra por vaidade. Nenhuma compra por impulso. Nenhuma reunião que pudesse ter sido um e-mail.
Começo a desconfiar de mim. Encaixei numa única fantasia os dois clichês mais resistentes sobre tecnologia. Primeiro ela nos destrói; depois faz tudo melhor sem nós. Apocalipse e paraíso.
É uma eficiência admirável para um devaneio de poucos minutos. Ainda por cima, imaginei que as máquinas encontrariam nossos vestígios. Livros, estátuas, igrejas, fotografias, talheres, carregadores de celular. E tentariam explicar a humanidade.
Criariam teorias. Atribuiriam função ritual às selfies. Descobririam significado profundo onde havia apenas hábito ou mau gosto.
Muitos intelectuais também arriscam uma cena de origem explicativa. Não acharia estranho que minhas máquinas fizessem o mesmo.
Agora vem a parte embaraçosa.
Eu tinha projetado nelas nosso medo de destruir, nossa fantasia de perfeição, nossa necessidade de inventar histórias e ainda a pretensão de compreender quem veio antes.
Tentei criar máquinas superinteligentes, mas se tornaram super-humanas.
A inteligência artificial pode até vir a roubar empregos, tempo e atenção.
A minha imaginação, por enquanto, não.
Só estou em dúvida se fui muito longe com ela ou não o suficiente.



