À meia-noite de domingo, comecei a procurar um texto de Mário Gardelin escrito quando meu avô morreu. Não sabia onde estava nem bem o que procurava. O inconsciente é um arquivista fantástico. Troca as etiquetas das gavetas e, ainda assim, entrega o documento certo.
Às 18h de segunda-feira, encontrei. Gardelin narrava sua última conversa com meu avô Eloy e a encerrava assim: “Havia cordialidade, paz e a certeza de que a caminhada não fora em vão.”
Só então notei a data da publicação no canto da folha de jornal: 3 de agosto de 1990. Eu o reencontrava em 3 de agosto de 2026. Talvez não procurasse um texto. Procurava essa frase.
Luto contra a ideia de que a vida seja uma obra solitária, uma estrada que parte do nada para terminar em lugar nenhum, como escreveu Virginia Woolf no seu diário. Gosto de olhar para trás, para o mundo que existia antes de eu sequer ser sonhado. Na semana do Dia dos Pais, esse olhar passa por meu pai, meu avô, meu bisavô e o pai dele, e segue recuando.
Penso que conheço meu pai, Emílio, embora ele sempre me surpreenda. Já não lembro como era a voz do vô Eloy. Do bisavô Emílio e do tataravô Júlio, restam fotografias. Antes deles vêm Johann Philipp, Johann, Johann Michael, Hans Michael e, enfim, Johannes Kunz, nascido em 1680: o pai do pai do pai do pai do pai do pai do pai do pai de meu pai.
Não sei quem foi o pai de Johannes e deste só sobrou o nome. Dificilmente ele imaginaria que, na décima geração dessa linhagem, alguém escreveria seu nome num jornal do Brasil, numa cidade que só surgiria quase dois séculos depois.
O que haverá dele em mim? Alguns genes, talvez. Ou nem isso. Quantas adoções e segredos não terão perdido o registro em 350 anos? Mas a paternidade nunca dependeu apenas da biologia.
Gregório Duvivier brinca, em O Céu da Língua, que “papa” teria nascido de um mal-entendido. A criança pede comida e o homem, julgando-se chamado, torna-se pai. Muitas coincidências fazem um homem pai de alguém. Exercer a função terceira, como se prefere nas rodas psicanalíticas, exige desejo de mostrar ao filho que existe um mundo além de si — não precisa ser homem para cumprir esse papel.
Johannes provavelmente não falava português e jamais leu os versos de Fernando Pessoa “tudo vale a pena/se a alma não é pequena”. A medida de uma caminhada é sempre singular; depende muito de como foi exercida a função paterna e de como cada um de nós a internaliza.
A de Eloy não fora em vão, escreveu Gardelin. A de Johannes valeu a pena? Não sei. Posso responder apenas pela parte da estrada que chegou até mim. Até aqui, está valendo. Obrigado, pai.

