Enquanto o Brasil está na Copa, ninguém pergunta por quê. A gente veste verde e amarelo, xinga o técnico, discute escalação e sofre. Schopenhauer escreveu que esse é um tipo barato de orgulho, pois compensa algo que nos falta como indivíduos. Faz sentido, mas vivenciamos esse sentimento como algo visceral, como se não tivéssemos alternativa.
Quando a seleção perde, começa a parte interessante.
Sem a amarelinha, precisamos escolher. E a maior questão é a Argentina.
Uns torcem contra por princípio. Tratam os argentinos como rivais de família, tipo aqueles parentes que irritam porque se parecem demais conosco. Outros os reconhecem como irmãos latino-americanos. Raros brasileiros não sentem nada quando se trata dos “hermanos”.
Esses dias conheci a história de Ötzi, o homem encontrado congelado nos Alpes há mais de cinco mil anos. Cientistas descobriram sua idade, suas doenças e sua última refeição. Sabemos o que havia em seu estômago, mas não o que pensava enquanto subia a montanha.
Não sabemos de quem sentia saudade, quais histórias repetia, nem que medo o acompanhava. Seu corpo atravessou cinco milênios; sua voz não.
Desconfio da obsessão por porcentagens genéticas, mas vejo beleza em como destrói a fantasia da pureza. Somos feitos de fugas, guerras, amores e filhos de Romeus e Julietas.
Ninguém pertence biologicamente a um pedaço de terra. Nomes de montanhas, fronteiras e leis mudam. Ainda assim, precisamos nos sentir pertencentes a um grupo, uma cidade, uma seleção, uma história.
Sem o Brasil e sem a Itália, nunca sei para quem torcer. Às vezes quero que a Argentina perca só para conservar uma rivalidade que me diverte, sem negar uma dose de inveja. Em outras, vejo aquela camisa diante de uma potência europeia e percebo o mapa se movendo dentro de mim. De repente, reclamo do juiz em castelhano.
Provavelmente Ötzi também tivesse seus vizinhos, seus estrangeiros e algum povo que preferisse ver derrotado. Sabemos detalhes sobre o que ele comeu horas antes de morrer, mas não se ele reconhecia aquele território como seu ou se se sentia estrangeiro.
A genética desfaz a pureza, a história relativiza as fronteiras e a nossa camisa sai de campo. Sem essas certezas para escolher por nós, ficamos sozinhos diante da liberdade. Não há sangue, mapa ou ancestral que possa responder em nosso lugar.
Para a final da Copa, ainda terei de decidir. E talvez o peso da escolha esteja justamente em saber que não importa por quem eu torça, já não poderei dizer que foi a natureza que escolheu por mim.



