Tenho viajado muito. Entre aulas e visitas a vinícolas, comecei a desconfiar que viajar não serve apenas para conhecer o mundo. Serve para o mundo nos desmentir. A distância arranca de nós aquela confortável fantasia de que sabemos quem somos. Às vezes basta o cheiro da terra depois da chuva, uma mesa improvisada ou alguém servindo vinho sem pressa para deslocar certezas que pareciam muito bem acomodadas.
Estudar vinho de maneira rigorosa envolve ciência. Falamos de acidez, solo, clima, fermentação, tempo de garrafa. Tudo correto e necessário. Mas, quando a taça encosta na boca, a precisão começa a falhar. O vinho não entra sozinho. Com ele vêm a memória, o desejo, a culpa e aquela saudade que jurávamos resolvida. Provamos a bebida, mas também uma versão de nós mesmos.
A psicanálise conhece bem esse truque. Dizemos que queremos uma coisa e desejamos outra. Lembramos para esquecer e esquecemos para continuar lembrando. Diante de uma taça, a neutralidade é outra ficção. O aroma que para alguém é apenas fruta pode devolver a outro uma cozinha, um rosto ou uma tarde que já não existe.
Viajar apenas torna isso mais evidente. Um produtor pode explicar durante horas a geologia de sua vinha. Mas há algo que nenhuma análise alcança quando ele toca uma planta antiga como quem reconhece nela a história da própria família. Nesse gesto, o terroir deixa de ser conceito e passa a ser vínculo.
As máquinas podem organizar safras, identificar padrões e sugerir harmonizações melhores do que muita gente. Ainda assim, perfeição é um atributo pobre para aquilo que importa. Falta à IA o corpo que chega cansado, a mão que treme, o vinho derramado, o riso no momento errado. Falta às máquinas a experiência de entrar num lugar onde ninguém nos esperava e sair com a impressão de que éramos aguardados havia anos. Às vezes, há a expectativa de ser recebido como rei e ser tratado como servo. Tristeza, dor e ódio são combustíveis potentes de nossa vida emocional.
É isso que o encontro faz. Desorganiza. Atravessa idiomas, desmonta defesas e revela que compreender alguém nunca foi entender tudo. É sustentar por alguns instantes o que permanece estranho, no outro e em nós.
No fim, quando a taça se esvazia, não resta o vinho. Restam o rosto que reaparece sem explicação, a frase que continua ecoando e a sensação de termos sido, por um momento, menos coerentes e mais vivos.
Não penso que a lucidez seja entender o mundo, tarefa impossível e, a meu ver, inútil. Gosto mais de acreditar que seja algo que aconteça entre o último gole de uma taça e aquela gota que sempre fica no fundo.



