A comunicação é uma das ficções mais necessárias às relações humanas. Falamos porque precisamos acreditar que algo sai de dentro de nós e chega, mais ou menos inteiro, ao outro. Quase nunca chega. Entre o que pensamos, sentimos, o que conseguimos dizer, o que o outro escuta e aquilo que entende, há uma sucessão de traduções, perdas e acidentes.
Isso se torna mais evidente quando falamos uma língua estrangeira. Procuramos palavras, mas nem sempre encontramos, observamos o rosto do interlocutor e aceitamos, desde o início, que algo será perdido no caminho. Trabalhar internacionalmente é um ótimo exercício de humildade porque se parte da constatação bastante honesta de que ninguém vai entender ninguém completamente.
O problema é quando falamos a mesma língua. Ao pronunciarmos sons parecidos, supomos que compartilhamos os mesmos sentidos. Esquecemos que cada palavra chega envolta em uma biografia única de cada pessoa. A dificuldade de nos comunicarmos revela que nem dentro de nós mesmos há uma língua única. Uma parte deseja, outra proíbe, outra inventa explicações e todas escutam tudo errado. Somos estrangeiros inclusive para nós mesmos.
Ainda assim, formamos grupos, sempre alimentados por amor e ódio. O ódio oferece um inimigo comum, recurso antigo dos políticos e das torcidas de futebol. Não exige que as pessoas gostem umas das outras; basta que detestem juntas algo supostamente de fora.
O amor também pode reunir, mas não necessariamente sob a forma edificante de todos amarem a todos. Na maior parte das vezes, o que nos aproxima é amar alguma coisa em comum. Um hobby, uma ideia, uma profissão, uma garrafa de vinho. Nem precisamos saber o que buscamos. Basta sonhar juntos. A paixão compartilhada não elimina as incompreensões, mas nos dá uma razão para trabalhar apesar delas.
Quando digo que trabalho como sommelier, muita gente exclama: “Ai, que chique!”. Provavelmente imagina salões elegantes, grandes vinhos e conversas em línguas estrangeiras (très chic, obviamente). Mas não imagina as caixas carregadas, as taças polidas, o carro do frete empurrado para pegar no tranco e a necessidade de, meia hora depois, surgir impecável diante do público. Às vezes apresentando em outra língua, para que a incompreensão seja ainda mais oficialmente internacional.
Uma boa metáfora para toda relação humana. Por trás da aparência fluida, há peso, esforço, improviso e muita coisa que precisa ser empurrada. Comunicar-se não é compreender o outro. É aceitar que nunca o compreenderemos por inteiro e, ainda assim, encontrar alguma coisa que mereça ser carregada juntos.

