Há um preconceito contra as lacunas. Basta aparecer um vazio e alguém já corre com cimento, explicação ou conselho. O mundo virou uma fábrica de tapa-buracos. Não me agrada para nada.
A vida mora justamente no que não encosta.
Entre um neurônio e outro existe um espaço. É ali que o pensamento acontece. O impulso não salta de um para outro, precisa ser traduzido. É um intervalo que produz consciência. A natureza teve a elegância de não eliminar a distância. Fez dela um método.
Nós queremos fazer o contrário.
Conhecemos alguém e já queremos abolir o intervalo. Queremos que o outro adivinhe nossas intenções, compartilhe nossos gostos, confirme nossas opiniões mais estúpidas e ria das mesmas piadas sem graça. Chamamos isso de afinidade.
Toda relação começa e termina por um mal-entendido. Pode ser que as melhores sobrevivam justamente porque duas pessoas decidem continuar cultivando o terreno baldio das incompreensões.
Ninguém entra diretamente na alma de ninguém. Na vida real, tudo chega atrasado. As palavras saem tortas, os gestos são mal interpretados, os silêncios ofendem sem querer e os afetos vivem pedindo legenda.
Mesmo assim, há de se insistir.
Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil falar e tão difícil conversar. Nunca houve tanta opinião disponível e tão poucos lugares onde alguém possa dizer “não sei” sem ser tratado como idiota.
Os dedos são mais rápidos que os xerifes de filmes de faroeste quando se trata de buscar respostas na internet no meio de uma conversa. Os especialistas em vencer discussões são os mais rápidos no gatilho. Têm razão, mas se afastam um pouco.
Suspeito que a solidão moderna não venha da falta de gente, mas da falta de espaço seguro entre as pessoas. Um espaço de hesitação, de mudança de ideia, de desculpas ou de silêncio, sem que isso seja interpretado como abandono.
Relacionamentos raramente acabam por falta de amor. Terminam de exaustão. Duas pessoas tentando eliminar essa distância constitutiva.
A diferença entre aproximar e invadir é brutal.
Quem elimina toda distância transforma o outro numa extensão de si mesmo. Quem tenta habitá-la descobre um continente inteiro em vez de um mero espelho. Suporta o espanto de encontrar alguém que nunca será igual a ti.
No fim, a natureza já tinha dado a pista. Se a sinapse existe no intervalo entre dois neurônios, por que imaginar que a vida afetiva aconteceria de outro jeito?
Nosso trabalho não é acabar com a distância. É não paralisar por medo de cair no abismo.

