Há uma cena no filme Match Point, de Woody Allen, que, para mim, explica melhor um jogo do que muitos debates de TV. A bola toca a rede e fica suspensa. Pode cair de um lado ou de outro. Depois que cai, começa a fabricação das certezas. O vencedor era lúcido. O derrotado era ingênuo. O acaso não aparece no relatório.
Pensei nisso depois da eliminação do Brasil. Mr. Ancelotti, que dias antes parecia um sábio pela coragem de mudar o time contra o Japão, transformou-se em vilão depois da derrota para a Noruega. A ousadia decaiu de virtude a imprudência. A mente se protege da incerteza transformando probabilidades em sentenças morais.
Lembrei também de O andar do bêbado, livro que mostra como somos ruins em aceitar que o mundo é mais regido por probabilidades do que por resultados certos. Gostamos de imaginar que tudo tem causa direta. Mas a vida cambaleia. Avança por desvios e coincidências. Só depois desenhamos uma linha reta e chamamos de destino.
Por isso acho pobre dividir o futebol entre heróis e vilões. Gostei de Ancelotti porque tentou ganhar. Gostei de Vini Jr. porque tentou driblar quando a prudência recomendava o passe lateral. Gostei de Neymar porque lutou com a palavra que lhe restava e com a vaidade ferida.
É fácil julgar de casa, comendo pipoca e tomando cerveja, enquanto os outros suam. Há também o fiscal da tragédia alheia, o ex-herói de chuteiras que chama um técnico de idiota e decreta uma geração fracassada. Como se a própria memória não tivesse conhecido eliminação, vaias e diagnósticos cruéis. A derrota dos outros é falta de caráter; a nossa, circunstância.
Talvez eu esteja sendo indulgente demais. Mas prefiro esse risco ao prazer vulgar de condenar. O esforço não garante nada. Podemos tentar muito e perder. Podemos jogar melhor e voltar para casa. Podemos fazer quase tudo certo e ver a bola cair do lado errado.
Meu domingo foi uma delícia. Torci, pulei, gritei, sofri. Estava com a família. Churrasco, conversa, afeto, essa felicidade doméstica que não cabe no placar. O que mais eu poderia querer? Que o Brasil ganhasse, claro. Mas isso mudaria pouca coisa na minha vida, talvez nada.
Na segunda, amanheci cheio de tarefas, preguiça e boletos. A vitória seria uma euforia emprestada. A derrota, uma tristeza passageira. Já o domingo foi meu por inteiro.
Continuo admirando quem vive com coragem. Quem muda o time. Quem tenta o drible. Quem discute em vez de calar. A vida, como a bola de Match Point, nem sempre é justa. A grandeza não está no lado em que a bola cai, mas em permanecer inteiro no jogo enquanto ela ainda está no ar.


