No dia 2 de junho, celebra-se a Festa della Repubblica Italiana. No dia seguinte, 3 de junho, o Dia Internacional do Sommelier. Duas datas especialmente importantes para mim.
Na noite da Festa da República, o Consulado da Itália organizou uma celebração belíssima. Inspirada no Carnaval de Veneza, com música, dança, acrobacia, teatro, máscaras, elegância e beleza. Entre uma taça, uma música e uma cena, fiquei pensando que estar ali tinha muito a ver com dois estudos que nunca foram exatamente obrigatórios na minha vida, mas que nasceram de paixões profundas.
Quando fui morar em Porto Alegre para estudar Engenharia de Alimentos, era evidente que eu precisava melhorar meu inglês. A leitura de artigos científicos, as pretensões internacionais e o próprio ambiente acadêmico, faziam desse estudo uma obrigação. Mas, com muito mais entusiasmo, eu me perdia entre aulas de grego, latim, mandarim e, aos sábados, italiano.
Quase todos ao meu redor questionavam aquela suposta perda de tempo. Ninguém entendia principalmente o que eu poderia ganhar estudando italiano, ainda mais tendo alguma familiaridade com o nosso dileto dialeto talian. Nem eu sabia explicar. Mas algo me chamava. Talvez fosse a tentativa de resgatar uma parte de mim que eu nem sabia se estava perdida. Ou a sonoridade das palavras. As histórias do professor Filippo, que me comoviam tanto quanto as do nonno. Mas o melhor era estar com pessoas que compartilhavam da mesma paixão.
Há uma fala do filme O Segredo dos Seus Olhos: “ele pode mudar de tudo: de cara, de casa, de família, de namorada, de religião, de Deus. Mas há uma coisa que ele não pode mudar: ele não pode mudar de paixão.”
Foi essa paixão que me levou a estudar sommellerie mesmo depois de um mestrado em vinhos. Também me fez largar uma vida aparentemente garantida para morar na Itália como estudante. E me levou a estagiar numa vinícola de uma região que amo, mesmo depois de já ter ocupado cargos de direção em outras empresas.
Nesta semana, entre a Festa da República Italiana e o Dia Internacional do Sommelier, por um instante tudo pareceu fazer sentido. Senti que eu estava onde e com quem queria estar. Cheguei guiado pelas paixões mais incompreensíveis, com um pouco de coragem, ou de imprudência, apesar das críticas, dos conselhos e dos deboches.
Entre escolhas úteis e aquelas que ninguém entende, a beleza da vida se revela numa noite de máscaras, música e vinho.

