Há livros que têm o péssimo hábito de nos desmascarar. Foi o que me aconteceu lendo Cartas Persas, de Montesquieu. O truque é simples e genial. Dois persas olham para a França com o espanto de quem ainda não foi domesticado pelo costume. O resultado é impiedoso. Aquilo que os franceses chamavam de civilização começa a parecer um teatro de pompa, vaidade e gente levando a sério demais a própria fantasia.
Me reconheci na armadilha. Basta trocar a França do século 18 por uma sala VIP de aeroporto, por meia dúzia de restaurantes metidos a cosmopolitas ou por certos perfis de rede social e já estamos todos lá, exibindo nossos rituais tribais, nossas pequenas superioridades e nossos delírios de importância. Mudou o figurino, mas a comédia humana segue com a mesma falta de modéstia.
Pensei nisso olhando o mapa da minha própria angústia. Sempre me deu um arrepio pensar numa vida inteira restrita a poucos quilômetros. Os mesmos trajetos, os mesmos rostos, os mesmos assuntos, as mesmas mesas, os mesmos viventes repetindo as mesmas opiniões com a segurança bovina de quem acha que o mundo termina na esquina de casa. Me sufoca. Como se ficar tempo demais no mesmo perímetro fosse um jeito muito eficiente de endurecer por dentro e acabar refém de uma versão de si mesmo conhecida em excesso.
Viajo porque o estrangeiro ainda me salva da estupidez de achar natural demais o mundo em que vivo e, pior, a versão de mim que esse mundo já aprendeu a reconhecer. Trocar de país, de língua, de paisagem, de vinho e de cheiro de rua me devolve a sensação de que a vida ainda não foi reduzida a um galpão de hábitos limpo, organizado e morto por dentro.
Mas a idade tem a deselegância de complicar até as convicções que pareciam nobres. Comecei a desconfiar que essa fuga do confinamento é só outra forma de prisão. Há quem fique encarcerado na rotina, no bairro, no serviço, na família, no medo de mudar. E há quem fique preso ao movimento, ao embarque, à próxima viagem, ao próximo idioma, ao próximo cenário capaz de devolver a ilusão de frescor. Uns mofam parados. Outros atravessam continentes apenas para repetir a mesma neurose em fusos horários diferentes.
No fim, a vida adulta não consiste em encontrar a chave da cela. O máximo que se pode esperar é descobrir o desenho das próprias grades e aprender a não ser o carcereiro de si mesmo. Porque há sujeito que chama de liberdade o fato de nunca sair. E há sujeito que chama de liberdade o fato de nunca conseguir ficar. Os dois estão presos. A diferença é que um cumpre pena em casa. O outro embarca.


