Soube da morte de Daniel Cathiard pela voz do enólogo atual do Château Smith Haut Lafitte. Estávamos ali, diante de um grande vinho de Bordeaux, quando o assunto surgiu. Não foi preciso muita explicação. Seu rosto desmontou. A morte, quando toca alguém que encarnou um projeto, retira também uma presença organizadora de muitas vidas, trabalhos e sonhos que encontram direção.
Logo depois, no entanto, o mesmo rosto se iluminou. Ao falar dos vinhos que elabora, do cuidado com os vinhedos, da precisão da cave e do potencial de guarda das garrafas, ele parecia reluzir. Era como se a dor e a continuidade ocupassem o mesmo corpo. De um lado, o luto por quem partiu. De outro, a evidência de que algo daquele sonho seguia vivo, amadurecendo nas garrafas.
Então fui lembrado de um vinho de 1975 que degustei no sábado passado. Uma garrafa que esperou 51 anos para ser aberta. Cinquenta e um anos guardando sabores e trabalho humano. Alguém podou aquelas videiras. Alguém acompanhou o clima daquele ano. Alguém decidiu o ponto da colheita, conduziu a fermentação, escolheu a madeira, engarrafou e talvez tenha imaginado que aquele vinho um dia encontraria alguém para apreciá-lo.
O vinho é uma das obras humanas feitas para não se concluir no momento em que fica pronta. Ele nasce incompleto. Precisa do tempo, do escuro, da espera e, finalmente, de alguém que o abra. Uma grande garrafa antiga é uma promessa lançada ao futuro por pessoas que provavelmente nunca conhecerão seus destinatários.
Degustar um vinho envelhecido é, além de um prazer dos sentidos, a realização tardia do sonho de quem o elaborou. Quem abre a garrafa completa um gesto iniciado antes. A rolha que sai libera memória. O vinho passa a ser encontro entre vivos e mortos, entre trabalho e espera, entre perda e permanência.
O trabalho do luto exige que a vida encontre novos destinos para aquilo que foi investido no objeto perdido. No vinho, esse destino às vezes já está esperando. Daniel Cathiard se foi. Mas quando um enólogo fala dos vinhos que ainda vão atravessar décadas, algo dele permanece como legado.
Esse é um dos ensinamentos de uma garrafa de 1975: algumas vidas continuam trabalhando depois de terminadas. Algumas mãos seguem ativas depois de desaparecerem. Alguns sonhos, quando bem plantados, ainda amadurecem no escuro até o dia em que alguém os abre, serve numa taça e, por alguns minutos, permite que o passado respire novamente.


