Quando tive a chance de encontrar Toquinho, eu o vi passando o som antes do show. Fiquei encantado, quase paralisado. Ele também parecia encantado com o próprio violão. Quando terminou, entreguei a garrafa de vinho que havia preparado para ele. Então me disse: “Trabalha com vinho, que inveja!” Ao que respondi: “Trabalha com música, que inveja!” Depois do show, jantamos juntos. Esse foi nosso único encontro.
A inveja é constitutiva do ser humano. Não é crítica, não é ofensa, não é crime – ainda que suas consequências possam vir a ser. É uma necessidade básica de direcionar para fora aspectos destrutivos, também constitutivos do humano. Não se confunde com a cobiça, o desejo de ter o que pertence ao outro. Invejar é, antes, desejar a destruição daquilo que imaginamos poderoso, criativo, prazeroso. O grande engodo desse sentimento está justamente na idealização exagerada da potência alheia.
Melanie Klein, uma das grandes referências da psicanálise, escreveu um dos textos mais belos sobre aquilo que nos torna humanos, justamente ao refletir sobre a inveja. Mas, como costuma acontecer, os artistas chegam primeiro à nossa essência. Pela voz de seu heterônimo Álvaro de Campos, Fernando Pessoa colocou em palavras o aspecto mais radical da inveja no verso: “hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu”. Assim como uma minissaia não é responsável por um estupro, não são as posses ou o estilo de vida de alguém que causam inveja. Esse sentimento é de total propriedade e responsabilidade de quem o sente.
Colocar a vida emocional no mesmo nível de importância das condições materiais pode soar como argumento de privilegiado. Tendo a concordar. Ao mesmo tempo, observo com frequência pessoas com recursos bastante limitados sendo extremamente generosas, evidenciando que lhes sobra algo. Também observo pessoas com recursos de sobra negociando centavos, revelando o que lhes falta. Sobram, ainda, pessoas ricas, muito ricas, famosas, muito famosas, mais angustiadas do que muitas outras que não conseguem manter os boletos em dia.
Não sei bem o que as pessoas entendem por vida invejável. Naquela noite, diante de Toquinho e de seu violão, claramente nós dois estávamos enganados. Eu via nele uma vida tomada pela música; ele via em mim uma vida atravessada pelo vinho. Cada um invejava, no outro, uma alegria constante que nenhum tinha e que ninguém tem. Em vez disso, vale pensar no que seria uma vida desejável. Uma vida interessante enriquecida por instantes fugazes em que conseguimos parar de querer ser outro e suportar a difícil beleza de sermos nós mesmos.




