O Design District, em Miami, não é exatamente um bairro. É uma encenação bem-sucedida de si mesmo. Um lugar onde arte, sofisticação e dinheiro convivem e se reconhecem. Como velhos conhecidos que já não precisam se explicar. Tudo ali parece casual. Mas até o desleixo é cuidadosamente desenhado.
Algo como encontrar garrafas de Champagne Cristal esquecidas na geladeira de um bar self-service, enquanto, no jardim ao lado, quatro senhores fumam charutos com a serenidade de quem não tem mais nada a provar. Um casal de artistas de rua no mesmo espaço, dividindo o palco com quem já comprou o teatro inteiro.
Foi nesse ambiente, mais precisamente nos Wynwood Walls, que li uma frase do artista de rua brasileiro Lelin Alves. Ele disse ter saído dali “convicto de que o mais importante na arte é ser verdadeiro […] que vale a pena acreditar no seu próprio estilo […]”. A frase não me soa ingênua. Soa necessária.
Arte de verdade é sempre honesta. Como obras de Simon Berger, o artista suíço que cria imagens quebrando vidro com um martelo. Impacto. Ruptura. Um tipo de violência controlada que, vista de perto, não revela nada além de estilhaços.
Mas é preciso recuar. E então, a imagem aparece.
Essa pequena distância é parte do que precisamos quando tentamos entender a própria vida. Queremos sentido no exato momento em que estamos sendo quebrados. Queremos clareza no meio do ruído. Queremos narrativa enquanto ainda somos fragmento.
Pensei em um amigo que reencontrei depois de muitos anos. Sua história, contada em pedaços, é caótica demais para ser compreendida. Perdas, desvios, decisões mal tomadas. De dentro, só havia desordem. Mas, ao escutar com alguma distância, vê-se um desenho possível.
Bonito e didático. A vida é um processo de construção não linear, de fratura sucessiva. E não há método capaz de nos poupar disso. Não depende só de vontade, nem de disciplina, nem de mérito. Há sempre algo que nos atravessa sem pedir licença.
No fim, o que nos resta é a leitura. A capacidade de olhar para os estilhaços e, com algum esforço e muita generosidade, reconhecer neles uma forma. E isso se faz contando a própria história.
Ser verdadeiro não é uma escolha estética, nem tão somente ética. É uma necessidade existencial.
Porque, no limite, a arte não resolve o absurdo. Mas é a única forma que encontramos de não sermos completamente engolidos por ele.
Mesmo que seja, no fim das contas, a arte de sobreviver.


