Algumas expressões que usamos cotidianamente podem soar bastante engraçadas quando prestamos atenção no seu significado mais literal. Quem não é gaúcho costuma se divertir bastante com nossa sabedoria rural. “Montar num porco”. “Frio de renguear cusco”. Ou com a nossa capacidade de transformar substantivos em verbos. “Chinelear”, “chavear”, “matear”, “lagartear”, “mosquear”.
Mas não queria escrever sobre isso. Quero escrever sobre uma pergunta simples, dessas que usamos sem pensar muito: “onde estamos?”
A expressão de indignação de quem não aceita algo. Uma tentativa de localizar algum resquício de sentido.
Esse estranhamento da distância entre o mundo como ele é e o mundo como acreditávamos que deveria ser. Às vezes parece um mundo absurdo, uma espécie de pesadelo. Talvez o mundo seja isso mesmo e a qualquer momento acordaremos — a esperança nunca morre, ao contrário de nós mesmos. Aliás, adoramos usar um sinônimo ao sabermos do falecimento de algum conhecido: “não acredito”. Como se a morte dependesse da nossa concordância.
Essa minha pseudo-filosofia-parametalinguística não vem da teoria. Hoje, fiquei impressionado comigo mesmo — e isso é qualquer coisa menos um autoelogio.
Estava no centro e resolvi voltar caminhando para casa. Precisei parar na farmácia. Participei de uma reunião só por áudio. Respondi algumas mensagens. Talvez mais do que algumas. Desisti de escutar música. Atravessei ruas. Esperei os sinais abrirem. Desviei de pessoas. Ou elas desviaram de mim.
Mas eu simplesmente não lembro do caminho.
E não estou falando de um apagão dramático, daqueles que merecem exame, susto familiar e recomendação de um médico com sobrancelhas graves. Eu sei o caminho que fiz. Acho que disso eu lembro, pelo menos. Mas não lembro de ter estado nele.
Lojas, bares, cafés. A igreja de São Pelegrino. Moradores de rua. Carros velhos, caros, com pressa. Gente falando sozinha ao telefone. Fachadas conhecidas. Calçadas irregulares. Vitrines.
Nada, absolutamente nada chamou a minha atenção.
Estamos ficando especialistas apenas em atravessar lugares. O corpo vai, a cabeça fica em outro horário. O dedo responde, o ouvido participa de uma reunião, os olhos fiscalizam notificações. Estamos em qualquer lugar, em qualquer tempo, menos aqui e agora.
Então talvez a pergunta “onde estamos?” tenha deixado de ser apenas indignação. Pode ser também diagnóstico.
Estamos no centro, mas não vemos a cidade. Estamos acompanhados, mas rolando telas. Estamos caminhando, mas sem paisagem.
O mais assustador não é não saber aonde vamos.
É não lembrar onde estamos.



