A convocação de Neymar, como quase tudo que envolve Neymar, não convocou apenas um jogador. Convocou opiniões. Convocou memórias. Convocou ressentimentos antigos, esperanças e aquela vontade brasileira de acreditar, mesmo quando dizemos que já não acreditamos mais.
Há quem tenha achado um erro. Há quem tenha achado justo. Há quem fale em história, quem fale em marketing, quem fale em milagre. O fato é que, concordando ou não, seu nome ainda mexe com muita coisa. Futebol nunca foi apenas sobre futebol. A seleção é uma das últimas ficções coletivas em que ainda aceitamos nos encontrar.
Pensei nisso lembrando de um período em que morei na Toscana. Eu estava lá por causa do vinho, dos negócios, da experiência profissional. Trabalhava em uma vinícola nos arredores de Montalcino, cercado por colinas, ciprestes e aquela beleza absurda dos cartões-postais italianos.
Um detalhe: eu não tinha carro. E, no interior da Toscana, não ter carro torna-se uma forma elegante de prisão. Perrengue chique, como se diz. O transporte público não ajudava. Então meus fins de semana, que vistos de longe pareciam cinematográficos, eram em geral bastante monótonos.
A paisagem era linda. O silêncio também. Mas silêncio demais soa vazio.
Foi nesse vazio que comecei a escrever e desenhar mais. Sem nenhuma grande pretensão, mas por necessidade. Era preciso inventar alguma coisa para atravessar o tempo. Aos poucos, desenhei tanto que melhorei. Um leão em giz de cera ficou na vinícola e está até hoje no escritório. Também dei retratos de presente ao Adriano, cantineiro da vinícola, e ao Michele, um grande amigo daquele tempo.
Eu tinha ido à Toscana para trabalhar com negócios do vinho. Entretanto, as marcas mais afetivas que deixei por lá nasceram justamente daquilo que era lateral, improvisado, inútil. O tédio produziu memória. A monotonia, que parecia inimiga da experiência, acabou sendo sua cúmplice.
A vida é assim mesmo. A gente aposta no acontecimento principal, mas muitas vezes é o intervalo que permanece. A reunião passa. O projeto passa. A viagem passa. Um desenho feito numa tarde sem planos fica pendurado numa parede.
Por isso, mesmo que a convocação de Neymar divida o país, há algo bonito no simples fato de ainda sermos capazes de reatar nossos laços. Com a seleção. Com a infância. Com a expectativa. Com a parte de nós.
Nem todo retorno é redenção. Nem toda esperança é ingenuidade. Talvez, só uma forma de admitir que ainda queremos torcer juntos por algo em comum.

