Gosto de mexer em fotos antigas e textos amarelados da família. Um dia desses, encontrei uma fábula, que apesar de maniqueista, hierárquica e com um desfecho moralizante e duro, não merece ficar atirada numa gaveta. Então, resolvi atualizar para facilitar a leitura e publicar. Se algum dia descobrir a autoria, darei os créditos.
Vendo o rato e o leão juntos, todos perguntavam ao felino por que andava com aquele animal. O rei da savana respondia firme:
— Somos iguais no que nos incomoda e nos completamos em nossas qualidades. Talvez ele seja de outra raça, mas é da mesma espécie!
Ninguém ousava dizer que se tratava de um rato. Os mais íntimos arriscavam comentários: “o senhor tão grande, com um amigo tão magro”, “tão forte, com uma companhia tão fraca”, “tão corajoso, com um parceiro tão rasteiro”.
Mas nada abalava a dupla. O leão, mesmo veloz, admirava a agilidade do roedor. Invejava até sua habilidade de entrar em buracos e aparecer nos aposentos mais suntuosos. O Instagram do ratinho era um show de gulodices e cenários encantados, sempre favorecidos por filtros e zoom, que não diferenciam quem vive de migalhas de quem tem força para viver por si. Mas eram nas conversas privadas que a proximidade se estreitava.
Ali, o leão se abaixava tanto quanto podia, sentindo-se mais próximo. “Os outros exageram nossas pequenas diferenças”, sussurrava o rato. E, com o tempo, as visões convergiram: o leão passou a se comportar segundo as ideias do rato. Este, de peito estufado, ostentava uma coragem engrandecida, afinal, tinha sempre a proteção do felino. Agora, ninguém podia ver um sem lembrar do outro.
Até que, certo dia, o rato entrou num castelo. Conquistou novas migalhas. Não contou ao leão, que jamais seria admitido ali, fera que era. O rato sabia aproveitar os espaços estreitos, escalar roupas, usurpar mesas e camas.
O leão, enfraquecido pelo pensamento rasteiro, sentiu algo que há muito não experimentava: medo. Enfurecido, lembrou-se de que não sabia ser sorrateiro, mas precisava ser forte. Foi então que percebeu: a única coisa em comum com aquele animal tão sujo e traiçoeiro era a coceira provocada pelas pulgas que ambos carregavam.


