“Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos.” Sempre me incomodou. Sonhos não são mesquinhos. O mundo é. E é justamente o que o Estêvāo Ciavatta disse ao esclarecer que a letra original diz “Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho”.
A Psicanálise ensina que sonhar é função. Artemidoro intuiu isso milênios antes. É onde o pensamento começa, quando as sensações ganham contorno, quando aquilo que nos atravessa encontra alguma forma de existir. Sonhar é transformar o excesso em algo suportável. É o primeiro gesto de elaboração.
Mas o mundo não elabora. O mundo mói.
E hoje mói com pressa. Nas redes sociais, sobretudo. O mesmo vídeo que me abriu uma fresta de pensamento abriu também o fluxo previsível de comentários rasos, agressividade automática, julgamentos instantâneos. Gente que não escuta, que não pensa, apenas reage.
O autor do vídeo respondeu com paciência. Quase um anacronismo.
A arte nunca foi um território estável. Cada leitura desloca. Cada interpretação reorganiza. É assim que ampliamos nossa capacidade de sentir. Mas é também assim que a distorção se instala. Às vezes, mais que um erro evidente, uma versão conveniente.
Porque pensar exige trabalho. E sentir, sozinho, não basta.
Uma palavra, uma vírgula, e tudo muda. Sonhos deixam de ser potência e passam a ser defeitos. E, com isso, vêm as narrativas fáceis demais. Histórias que explicam tudo, que fecham sentidos, que aliviam a tensão de não saber. Como a versão falsa de que Cartola teria escrito essa canção para sua filha adotiva que supostamente saíra de casa para se prostituir.
Histórias assim confortam. E justamente por isso, empobrecem.
Eu mesmo já cantei essa versão. Já precisei diminuir o outro para dar algum contorno à minha própria dor. Já precisei acreditar que o erro estava fora, que o sonho alheio era excessivo, inadequado, ridículo.
Mas não era. Nunca é.
Seguimos sufocados entre o mundo interno e o externo. Querendo viver de um modo bonito, mas quase nunca conseguindo. E, quando não conseguimos, nos tornamos pequenos. Pequenos nos gestos, nas palavras, nos julgamentos apressados.
Não acredito nessa guerra organizada entre o bem e o mal que tanto tranquiliza a nossa mediocridade. Não há lados claros nem posições estáveis.
Penso mais numa oscilação contínua entre beleza e mesquinhez. Uma versão mais incômoda de ver a vida.
E o mais difícil não é escolher um lado. É perceber, com alguma honestidade, em qual deles estamos a cada momento.
