Sergio Mattarella é um líder elegante. Raro num tempo em que autoridade é confundida com performance.
Tenho dificuldade em definir elegância, que só se torna evidente por contraste. É fácil reconhecer o seu oposto. O sujeito que levanta a voz antes de ter razão, que confunde firmeza com grosseria, que usa o cargo como megafone da própria insegurança. Está cheio deles por aí, em todas as escalas. Do condomínio à geopolítica.
Mattarella não entra nesse jogo. Aos 84 anos, não disputa volume, disputa tempo. Sua autoridade não acelera, sustenta. E isso, hoje, pode soar até subversivo.
Quando tive a chance de encontrá-lo, dirigiu-me poucas palavras. Simples e memoráveis. Esse é o ponto. A autoridade real não precisa produzir frases de efeito. Ela produz efeito nas frases. Não havia imposição de hierarquia no modo como se dirigiu a mim. Nem condescendência, nem esforço de parecer simples. Apenas o olhar profundo na mesma altura dos meus olhos.
Dias atrás, sugeriu a autoironia como antídoto aos vícios do poder. Num mundo viciado em levar tudo a sério demais, especialmente a si mesmo, a proposta soa quase ofensiva. Rir de si? Em público? Imagine isso aplicado a líderes que se levam tão a sério que tomam qualquer discordância como ameaça existencial.
Talvez por isso prefiram mísseis.
A autoironia é perigosa porque desmonta a personagem. E muita gente hoje não tem nada além da personagem. Sem ela, sobra pouco. Às vezes, nada. Por isso, o apego à rigidez, à pose, à narrativa inflada. É um esforço contínuo de não ser desmascarado.
Mas esse não é um problema só dos poderosos. Nas relações cotidianas, a lógica é a mesma, só muda a escala. Pequenos poderes, pequenas vaidades, pequenas guerras frias. Gente que prefere estar certa a estar junto.
Demorei para assistir ao Project Hail Mary. O título em português (Devoradores de estrelas) ajuda pouco, mas o filme ajuda muito. Não é sobre ciência, é sobre convivência. Sobre como dois seres absolutamente incompatíveis conseguem, ainda assim, construir algo em comum.
A autoironia é também ferramenta de aproximação. Quem ri de si mesmo reduz o próprio tamanho. E, ao fazer isso, cria espaço para o outro. Sem isso, só resta disputa.
O riso compartilhado é o sinal inequívoco da intimidade. Também o choro e o abraço. Toda demonstração que reconhece a própria falha a torna suportável. Ao mesmo tempo, ajuda a suportar a falha do outro.
Talvez o verdadeiro oposto de qualquer guerra seja a capacidade de não se levar tão a sério o tempo inteiro.
Pouca gente aguenta isso.


