A chegada do homem à lua foi um dos maiores feitos da história. O salto tecnológico escancarou a nossa capacidade de organizar inteligência, recursos e desejo para realizar um sonho que parecia impossível. Hoje, carregamos no bolso mais capacidade computacional do que havia naquelas naves que cruzaram o vazio nos anos 1960. Mas parecemos sonhar menos. Certamente menos do que Derek Taylor no encarte do LP Beatles for Sale de 1964, que imaginou crianças num piquenique em Saturno escutando aquelas músicas no ano 2000.
Foi também um marco simbólico. Guerra Fria, disputa ideológica, poder. Olhando em retrospecto, há quem veja ali o início do fim de uma narrativa. Ou de várias. Ficou também lixo na lua. Quase 200 toneladas. Levamos conosco o excesso e deixamos para trás o resto que nos define como humanos desde os primórdios.
E houve quem desconfiasse. A lua tornou-se palco de teorias, crenças e negações. Pouco importa de que lado se está, sempre será o outro lado o lugar das fake news. Talvez esse seja o verdadeiro marco contemporâneo.
Alguns reagiram com tristeza. Temiam que a presença humana esvaziasse o mistério. Que a bandeira fincada no solo lunar rasgasse o véu poético que por séculos sustentou versos, músicas, silêncios. Vinicius, Garcia Lorca, Caetano e tantos outros escreveram sob sua luz. Machado de Assis resumiu: “Os namorados gostam sempre da lua.” Gostavam e gostarão enquanto ela estiver distante.
Nesta semana, novas imagens circularam. Mais nítidas, mais detalhadas. E, de repente, a lua apareceu colorida. Confesso que me encantei. Pensei em escrever sobre isso e sobre como, vistos de perto, todos somos mais complexos, mais cheios de nuances, menos previsíveis do que à distância.
Mas a ciência interrompe o devaneio. A lua é cinza aos nossos olhos, independentemente da distância. As imagens são tratadas, ajustadas, manipuladas para revelar o que está lá, mas não vemos. As cores não existem, precisam de mediação.
E talvez seja exatamente isso.
Para conhecer alguém, não basta olhar. É preciso desenvolver uma tecnologia que não se encontra nos celulares nem nos telescópios. Uma tecnologia emocional. Uma capacidade de tolerar o desconhecido para sustentar a complexidade do outro sem reduzi-lo a tons de cinza. De enxergar além do visível, sem precisar falsear a realidade.
Apesar de nossos sobressaltos, a lua continua lá, silenciosa, cinza, indiferente. Ainda que ofuscadas pelas luzes da cidade, as estrelas parecem brilhar. Mas onde está a nossa capacidade de ouvir estrelas para além do nosso olhar?


