Esse dia sempre chega com a pretensão de dizer alguma coisa. Tenho a impressão de ser uma tentativa de compensar o dia primeiro. Não é um dia discreto. É um dia que se impõe, como se carregasse uma mensagem que a gente ainda não decifrou. Ou pior, como se já viesse com a interpretação pronta.
É o Dia da Criatividade. O que já é, por si só, suspeito. A criatividade raramente aceita ser domesticada. Ainda que possa se aproveitar de qualquer data como desculpa, ela prospera mais onde não é convidada. Aparece onde não havia plano ou quando o plano dá errado. Rompe com aquilo que parecia organizado. Ainda assim, a ONU decidiu celebrá-la em um dia que reúne alguns dos eventos mais simbolicamente organizados da história.
É o dia da morte de Tiradentes, transformado em herói nacional, não exatamente pelo que foi em vida, mas pelo que passou a representar depois de morto. Um corpo que virou narrativa, um episódio que virou identidade nacional.
É também o dia da fundação de Roma, envolta em mito como destino traçado retroativamente para dar sentido a uma origem. E, não por acaso, o dia escolhido para inaugurar Brasília, uma cidade planejada para parecer inevitável, quase como se sempre tivesse estado ali, esperando apenas ser revelada.
O universo não decidiu brincar de simetria entre as capitais. JK decidiu que isso faria sentido. E fez. Faz até hoje. Sobretudo pela estética do dia. E, com isso, elevar a nossa capital à grandeza da Cidade Eterna em nossas mentes e corações.
E então, como se não bastasse, ainda tentamos encaixar mortes, outras histórias, outros acontecimentos nesse mesmo dia. Tudo pode ser absorvido por esse impulso quase compulsivo de organizar o mundo em narrativas coerentes.
Aceitemos ou não, o acaso parece governar o mundo.
Mas nós precisamos acreditar que há uma lógica secreta, uma arquitetura invisível que sustenta os eventos, dos mais grandiosos aos mais cotidianos. Cidades são edificadas e destruídas. Um gato preto cruza a rua simplesmente porque precisa chegar ao outro lado. Tiradentes, apenas um homem com suas lutas e suas derrotas? Talvez tudo isso esteja ligado por um fio invisível de um sentido maior.
Mas talvez não. E se existir, podemos no máximo ter uma borrada intuição.
A criatividade nos ajuda a suportar a ausência desse fio ou nos aproximar do que ele poderia ser. Com ou sem sentido, o mundo continua existindo. Mas o nosso trabalho é tentar organizá-lo.
21 de abril não precisa ser necessariamente especial.
Nós é que precisamos.



