Das muitas coisas que não sei fazer, uma das que mais me incomoda é não saber pescar. Quem pesca parece sempre saber alguma coisa sobre o tempo, sobre paciência e sobre si mesmo. Eu não sei nada disso. Nem pescar em pesque-pague eu consigo, nesses açudes onde parece haver mais peixe do que água.
A pesca sempre me pareceu um belo pretexto. Viajar para pescar, pescar quando se está na praia, pescar num açude qualquer, com uma cadeira de plástico, uma caixa térmica e meia dúzia de histórias repetidas. Olho para pescadores e imagino que não estão lá para pescar. Mas para contar causos, desabafar, matar a saudade dos amigos, reclamar da vida, fugir um pouco de casa e de si mesmos. Há coisas que só conseguimos dizer olhando para o horizonte. Frente a frente, muitas vezes, a gente só se defende. De lado, olhando a água, às vezes, se confessa.
O mar dos pescadores me soa silencioso como suas linhas e suas redes. Um silêncio comprido, sem aflição. Depois, de repente, vem um peixe e tudo se rompe. O braço endurece, a linha vibra, o corpo desperta, a cena ganha urgência. Admiro essa intimidade com a espera. Eu, que me inquieto com cinco minutos de fila.
Certa vez, vi um pescador com um cigarro na boca. Ficou lá apenas o tempo de fumá-lo. Puxou um, dois, três, quatro, talvez cinco ou seis peixes. Tudo em minutos. Eu estava pescando também, ou tentando. O que consegui foi deixar minhas iscas de presente à Iemanjá. Olhava para ele com aquela inveja que a gente costuma disfarçar em admiração. Tentei repetir seus movimentos. Endireitei o corpo, imitei o pulso, copiei o movimento. Nada. A facilidade dele aumentava a minha humilhação.
Tive um pensamento mesquinho. E se eu tentasse um movimento, uma perturbação na água, um barulho? Talvez os peixes abandonassem o anzol dele. Não fiz nada, ainda bem. A inveja não é o desejo de possuir o talento do outro, mas a incapacidade de suportar que o outro faça com leveza aquilo que em nós é puro vexame.
Quando terminou o cigarro, ele recolheu a vara, olhou para mim e gritou: “Pode pegar todos”. E saiu caminhando, levando um único exemplar de seu trabalho.
O almoço foi divertido quando cheguei em casa com aquele pescado. Mas o que ficou não foi o peixe. Foi o gesto do pescador.
Aquele homem podia ter ido embora com a sua habilidade, com a sua fartura e com a sua pequena superioridade. Preferiu compartilhar. Agora lembrando disso, penso que talvez a melhor parte da pesca não seja tirar o peixe da água, mas em saber o que fazer com ele quando vem. Em tempos de tanta exibição, elegância é transformar destreza em generosidade.
