No último domingo, fui comprar uvas diretamente do produtor. Uvas assim, colhidas na hora, têm sabor mais fresco e intenso. Além disso, carregam algo da paisagem. Vêm com o cheiro da manhã, com a cor da parreira, com a memória de uma conversa boa. E a virtude adicional de custar menos para quem compra e de remunerar mais quem produz. Sem excesso de embalagem, sem a coreografia do varejo, sem a ficção de valor que tantas vezes encarece o que não melhora.
A palavra luxo costuma ser sequestrada por outra lógica. Faz pensar em distância, escassez, exclusividade. Faz pensar no que poucos podem ter e muitos devem invejar. Mas talvez boa parte do que chamamos de luxo seja apenas um mal-entendido bem embalado.
Li certa vez que, na Roma Antiga, uma forma de ter certos crimes perdoados era ir a pé até a Galícia e voltar com uma concha do mar como prova. Há quem diga que assim nasceu o Caminho de Santiago de Compostela. Voltando às conchas, não demorou para que ganhassem valor de mercado. O que para quem morava na praia era apenas um resto bonito da maré passou a ser sinal de distinção em lugares distantes. Nada mudou na concha. Mudou a moldura. Mudou o olhar. Mudou a história contada em torno dela.
Pensei nisso quando cheguei a Paris pela primeira vez e vi queijo brie a dois euros no supermercado. Senti alegria e irritação. Alegria por estar diante de algo que eu associava a prazer e refinamento. Irritação por vê-lo exposto com a banalidade de um item qualquer de prateleira. Fiquei com a suspeita incômoda de que eu talvez estivesse sobrevalorizando uma coisa comum demais. Depois entendi que não era bem isso. O valor das coisas quase nunca está nelas mesmas. Está na relação que somos capazes de construir com elas.
A ficha caiu de vez quando vi colegas europeus encantados com o café da manhã de um hotel bastante modesto da Serra gaúcha. Sem sofisticação no serviço, nem na louça, nem na cenografia. Mas a quantidade de frutas frescas impressionou. Era a evidência de que, ali, o que cresce bem ainda chega à mesa com naturalidade. O que para nós pode parecer habitual, para outros é abundância comovente.
Talvez o luxo seja a possibilidade de ter prazer com o que está ao alcance da mão. Não por resignação, mas por inteligência sensível. Saborear o que é pleno onde se vive. Reconhecer que a riqueza mais profunda nem sempre está no raro, mas no vivo, no próximo, no que ainda não foi inteiramente capturado pela vaidade.
Luxo mesmo é não depender da distância para atribuir valor. É perceber que, muitas vezes, o extraordinário não está longe. Está maduro.

