Já escrevi aqui que a polissemia é uma das belezas da língua. Uma palavra nunca cabe inteira num só sentido. Isso é poético. Às vezes, é até terapêutico. Freud construiu um método inteiro em torno disso. A livre associação, esse caminho torto pelo qual o sujeito acaba esbarrando no que preferia não ver. Nem sempre é agradável. Mas é assim que alguma verdade aparece.
No mundo interno, o equívoco pode iluminar. No mundo externo, costuma atrapalhar. As palavras são pouco e são tudo. É com elas que entramos na vida social. É com elas que nos apresentam, nos chamam, nos confundem. Se nascer é ser jogado no mundo, receber um nome é ser lançado na linguagem. O sobrenome traz restos de uma história. O nome próprio carrega o desejo dos outros.
O meu sobrenome é frequente na Alemanha, mas não no Brasil. Meu nome, ainda mais composto, nunca foi dos mais comuns. Só tive um colega com o mesmo nome na oitava série. Enquanto isso, toda sala parecia ter dois Guilhermes, três Gustavos, alguns Rodrigos. Quando eu era criança, isso me incomodava. Depois, passei a gostar. Havia certo conforto em imaginar que eu era, ao menos nominalmente, pouco repetível.
Não é bem assim.
Um dos meus homônimos entrou para a história da pior forma possível, foi o primeiro homem preso por feminicídio no Rio Grande do Sul. Desde 2015, quando esse nome começou a aparecer nos jornais, passei a viver pequenos constrangimentos. Uma tia-avó ligou para meu pai para saber o que tinha acontecido “comigo”. Nas redes sociais, já recebi ataques por engano. Amigos, claro, fazem piada. O nome, afinal, não nos pertence por completo. Ele circula. E às vezes volta sujo.
O que isso significa? Nada, em princípio. Um acaso. Uma coincidência brutal. Mas nem por isso inútil. O Dia da Mulher se aproxima e seguimos lendo notícias desse tipo com uma regularidade obscena. O horror como rotina. E esse talvez seja o dado mais grave.
Há gente que ainda trata a violência contra a mulher como se fosse desvio individual, exceção monstruosa, assunto dos outros. Não é. Ela também vive nas piadas, nas desculpas, nos silêncios, nas desautorizações cotidianas, na covardia social de fingir que não viu. O crime extremo não cai do céu. Ele é preparado em terreno conhecido.
Minha primeira reação, sempre, é dizer: eu não sou esse cara. E de fato não sou. Mas essa resposta, sozinha, vale pouco. A pergunta mais séria é outra: o que fazemos, toleramos ou deixamos passar para que atitudes como essas continuem existindo?
