Entendemos pouco. Talvez menos do que a nossa vaidade tolera admitir. Vemos uma faixa estreita do que existe, ouvimos outra ainda menor e, com esse material escasso, erguemos certezas, afetos, teorias e projetos de vida. Há algo de quase cômico nisso.
O velho “ver para crer” sempre me pareceu um pacto apressado com a superfície. Os olhos são úteis, mas não modestos. Gostam de sugerir que aquilo que mostram basta. Olhamos o céu e pensamos que o Sol se move e a Terra repousa. Se confiamos demais na aparência, convertemos impressão em verdade.
A realidade nunca se oferece inteira. Ela chega aos pedaços. Um ruído, uma lembrança, uma suspeita, um desejo, um medo, uma frase atravessada. Por fora, o mundo existe. Por dentro, outro mundo insiste. E nós, comprimidos entre um e outro, tentamos organizar o que mal compreendemos. Dar nome, medida e ordem às coisas talvez seja apenas a forma mais elegante do nosso improviso. Procuramos sentido como quem procura um gato silencioso num quarto escuro. O problema é que o gato talvez não esteja lá.
Nietzsche propunha perspectiva. Olhar a vida desde longe, contra o pano de fundo do universo infinito, para reduzir o drama pessoal à sua escala real. O exercício tem grandeza, mas não convém exagerar a sua eficácia. O que é pequeno não deixa de ferir. O ferrão de uma abelha, uma humilhação mínima, uma perda quase invisível. Certas coisas não precisam de grandeza para encontrar o nervo.
Talvez por isso nos refugiemos no acessório. Há reuniões que existem apenas para adiar uma decisão. Há discussões longas montadas para que nada se resolva. Há questões decisivas tratadas com displicência, enquanto ninharias recebem o peso das urgências históricas. A vida escorre, e nós aprendemos a desperdiçá-la com método.
Ainda assim, alguma lucidez é possível. Não quando vencemos o nosso ponto de vista, mas quando ao menos desconfiamos dele. Galileu fez esse gesto raro ao preferir uma verdade desconfortável à evidência enganosa dos olhos. O resto de nós continua dizendo, sem escândalo, que o Sol nasce e se põe.
Não tenho conclusão. Conclusões, muitas vezes, são só um modo elegante de encerrar à força o que continua em aberto. Uma vez por semana, sento para escrever esta crônica como quem retoma um pequeno absurdo. Empurro a pedra, alinho as frases, entrego a página. Depois, ela segue para o seu destino modesto. Pode servir ao esquecimento, à higiene de um pet, ao fogo, ao clique apressado, à indiferença. Ou, por algum instante, alcançar o pensamento de alguém.
Já seria mais do que se pode prometer.


