Uma das capacidades humanas mais autênticas é a de se assombrar. Não de se assustar simplesmente, mas de, ao mesmo tempo, maravilhar-se e temer numa profundidade que toca o mais íntimo de nosso ser. Uma capacidade que tem a potência de definir nossas vidas a ponto de decidir profissões, com quem casamos, onde moramos. Com toda a carga ambivalente que governa de que e de quem fugimos, do que não ousamos tocar e, em certa medida, de onde morremos.
Uma nova descoberta pode nos maravilhar. Lembro a primeira vez que vi um relógio com cronômetro e iluminação interna. O meu encantamento com o novo artefato comoveu tanto o adulto proprietário que consegui um empréstimo de 24 horas. Passei a noite praticamente em claro, embaixo das cobertas testando aquela luz misteriosa, exercitando a minha agilidade de acionar e parar o cronômetro ou simplesmente observando o funcionamento daquela verdadeira maravilha do engenho humano.
Georg Simmel deve ter tido uma reação bem contrária à criança que fui — e que ainda sou ou procuro ser. O sociólogo alemão defendia a ideia de que o relógio portátil internalizava o tempo aumentando a ansiedade. Obrigando a pontualidade (claramente não se tratava de um filósofo brasileiro), a popularização de tal instrumento ainda elevava a níveis preocupantes a pressão psíquica dos agitados centros urbanos europeus do início do século 20. Não muito distante do alarmismo gerado por alarmes e notificações de celulares hoje.
Mas o Jorjão alemão não foi o primeiro a condenar a tecnologia como inimiga da humanidade. Os gregos condenaram Prometeu a ter seu fígado comido eternamente por ter roubado o fogo dos deuses — há sempre o risco de ser expulso de algum paraíso depois de comer o fruto do conhecimento, fato devidamente alertado pela psicanalista Melanie Klein. Enfim, esse parece ser o ciclo do conhecimento: deslumbramento, medo e culpa. Não acontece necessariamente nessa ordem, nem com esses passos, mas quero escrever como se eu soubesse algo sobre saber.
E então chego aonde eu realmente queria começar o texto: uma inquietação que me invadiu sobre as consequências da Inteligência Artificial nas minhas atividades. Não é apenas sobre trabalho, mas sobre meus hobbies. Escrever, ensinar, desenhar, pintar, psicanalisar, montar planos estratégicos. Às vezes, tenho a impressão de que cedo ou tarde, tudo isso será mais bem feito por algum algoritmo. Um futuro como Matrix em que seremos escravizados por máquinas?
Nesta semana foram descobertas novas inscrições nas paredes de Pompeia. A cidade romana soterrada por pedras e cinzas do Vesúvio é mais uma fonte de maravilhamento para mim. O artigo do jornal eletrônico científico das escavações é intitulado “barulhos de corredor”. Sem divulgar todas as 79 novas mensagens descobertas, as agrupa em duas classificações: mensagens de amor e insultos. Isso me deu alguma esperança, afinal, enquanto existirmos, ainda seremos capazes de sentir. Muito.



